Conforme relatório do seguro obrigatório (DPVAT) que todos os proprietários de veículos pagam anualmente, os registros de indenizações pagas por invalidez permanente no Brasil atingiram a marca de 214 mil pessoas por ano, na média dos últimos 10 anos. Isso representa que as mais variadas formas de violência no trânsito no País geram 588 inválidos a cada dia, ou 25 por hora. Os dados confirmam o cenário de “guerra civil” no trânsito, onde as mortes somam, na média, 57 mil pessoas por ano.
A mortalidade ligada somente ao trânsito gera 157 velórios por dia e sete a cada uma hora, conforme o relatório anual de 2015. Para se ter ideia da dimensão dos números, a guerra contra o regime de Bashar al-Assad na Síria matou 240.381 pessoas em 4,5 anos, entre civis e militares, do início do conflito, em março de 2011, a agosto do ano passado, conforme recente divulgação feita pela Agência France Presse baseada em levantamento do chefe da Organização Síria para os Direitos Humanos, Rami Kalman.
Ou seja, a guerra urbana nacional tira de circulação, por ano, somente por invalidez, o que os conflitos armados por terra, ar e mar levaram pelo menos quatro anos para dizimar com armas pesadas, incluindo bombas e aviões. Dos conflitos sociais, obviamente de origens e conteúdos distintos, o cenário ligado ao trânsito é de maior extermínio de vidas e de brutal relação entre causa e efeito, seja pelo “confronto” de carros e motos, seja pela banalização da vida por origem cultural das pessoas no comando de veículos.
Por dentro dos assustadores dados de mortes e sequelados permanentes, a população não tem dimensão sobre as consequências sociais, humanas e as correlações de custo social e público em relação ao tema. Da fila represada no Pronto-Socorro (porque o atendimento de urgência é prioritário em relação à sala de espera do dia a dia), ao inevitável aumento nas despesas com serviços de traumatologia no sistema público de saúde, o número de inválidos permanentes ainda infla os gastos com indenizações, desampara milhares de famílias em razão das sequelas e retira o mesmo tanto significativo de trabalhadores do mercado de trabalho, tudo fruto dos acidentes.
Sinistro, tal qual o nome dos registros utilizado pelas seguradoras para as ocorrências, os dados equivalem, a cada ano à população inteira de cidades como Presidente Prudente e Araraquara, ambas com pouco mais de 200 mil habitantes.
Moto: 76% das indenizações relativas a acidentes
As estatísticas confirmam o que cada cidadão acompanha nas ruas: o transporte motorizado em duas rodas responde por 76% das indenizações relativas a acidentes de trânsito no Brasil. Conforme o relatório do DPVAT, 71% das vítimas têm entre 18 e 44 anos e, em uma estratificação mais fina, 51% do total estão na faixa de 18 a 34 anos.
Outros dois dados do relatório montam o tripé dos recados que a tragédia nas ruas fornecem para a ação dos agentes públicos de mobilidade e segurança. Dois terços dos acidentes são com motos, a metade envolvendo jovens e, do total, 37% das ocorrências são em finais de semana onde, paradoxalmente, o volume de tráfego é menor, com exceção de pontos de convergência (áreas de lazer, bares).
Das reuniões do grupo de estudos (Garat) que envolve Emdurb, Polícia Militar e outros agentes estudiosos sobre o trânsito, sai que a preocupação é concentrada na combinação que reúne motos, jovens e boa dose de negligência. O DPVAT acende o farol de alerta sobre um quarto indicador no meio de inúmeras planilhas: 22,9% das ocorrências acontecem ao anoitecer, sobretudo das 17 horas às 20 horas. Outros 20,8% registros ocorrem a tarde.
Ao fim, anote: das 214 mil pessoas inválidas em decorrência do trânsito, por ano, 91% das sequelas permanentes são em razão do uso de motocicletas.
Pela vida
Damos sequência hoje a uma série de reportagens sobre a violência e os maus hábitos no trânsito, que matam ou deixam sequelas irreversíveis em muita gente, mais do que as guerras, segundo revelam as estatísticas. A matéria desta página não é para simplesmente informar acidentes ou a quantidade deles e suas consequências, mas para apelar pela mobilização de cada um de nós. Não basta apenas as autoridades punirem.
Se a atitude final não for a dos motoristas e sua consciência, muitas famílias ainda entrarão na lista de uma tragédia moderna que é possivelmente evitável pela ação do próprio homem. O próximo acidente pode ser conosco ou com alguém de nossa família. Então, vamos adotar atitudes de prevenção!
ROLETA RUSSA
- Bauru teve 132 atropelamentos com 199 vítimas em 2015
- 119 atropelados eram adultos e 69 crianças de 0 a 12 anos
O que fazer?
O combate a todos esses “sintomas” não é algo simples. Do poder público vem as maiores demandas: da formação educacional, nas escolas, à fiscalização e melhoria do sistema viário. Mas do cidadão também restam inúmeros desafios, boa parte de natureza cultural. Utilizando dados da Confederação Nacional dos Transportes (CNT), os governos federal e estadual precisam recuperar estradas e eliminar problemas graves de tráfego em 60% da malha existente.
Da política de estímulo ao consumo, o governo brasileiro é um dos poucos, entre os “emergentes” que ainda não adotou política mais austera para retirar sucatas das ruas. A fiscalização é frouxa para a manutenção dos veículos. Nas cidades, o planejamento urbano e a convivência entre pedestres e motoristas é o caos, com a velocidade das soluções de mobilidade vindo na proporção inversa ao aumento da frota.
Regras de boa conduta, comportamento e respeito estão longe de uma boa parcela dos lares brasileiros. E a escola aplica, em boa parcela, de forma tímida a educação para o trânsito a partir das crianças. Aqui, no tempo, incluindo pais e filhos e formação, está a maior oportunidade de virar o jogo, apontam especialistas. Mais adiante, a ansiedade pela primeira CNH também tem de ser revista. Para o engenheiro mecânico e especialista no segmento automobilístico Marcos Camerini, “o jovem no Brasil é treinado para tirar carta e não dirigir”.
O consultor considera que é “extremamente necessário que o candidato a motorista tenha aula prática de dia e durante a noite, na cidade e estrada, tudo obrigatório. Hoje, a regulamentação concede habilitação para quem nunca treinou e o jovem pega a CNH tendo de aprender tudo com a autorização para dirigir nas mãos”, observa.
Mas outras medidas estão, há anos, em discussão, muitas aguardando apreciação no Conselho Nacional de Trânsito. Uma delas é a obrigatoriedade do acesso à primeira CNH apenas para carros. Em Bauru, engenheiros, técnicos e a presidência da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural (Emdurb) saem em defesa dessa alteração na regra para acesso à 1ª Carteira Nacional de Habilitação (CNH) no País, com a emissão de autorização para dirigir somente para veículos de quadro rodas, na origem. O acesso à “carta para moto” só deve vir depois do aprendizado ao volante de veículo em quatro rodas.
Instrutor de trânsito, Paulo Pereira Castro também defende a tese. Para ele, é absurdo que o jovem saia dirigindo moto – cujo curso e prova de habilitação é realizado em circuito – sem nunca ter sentado à frente do volante de um carro. Outra medida defendida é exigir aulas noturnas e em rodovia para o acesso à habilitação.
Uma legião com sequelas
Acidentes retiram jovens do mercado, aumentam gastos com saúde e deixam milhares ‘fora de circulação’
| Alex Mita |
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| Edimélia Carvalho trabalhava como comerciante e usava a moto para entrega de marmitas. Está parada desde abril e ainda não se livrou da muleta |
A rotina de Edimélia Carvalho da Silva, casada, comerciante e mãe de um moço de 20 anos, estava tranquila até abril de 2015. Uma colisão com um carro, no Jardim Bela Vista, mudou completamente seu dia a dia desde então. Segundo ela, um carro bateu contra sua moto após a passagem por trecho com mudança de mão de direção, após uma placa Pare. O joelho esquerdo “partiu”.
Nove meses depois, ela ainda sente dores para movimentar a perna, não consegue andar sem a ajuda de uma muleta e depende de fisioterapia para seguir em busca da volta à “vida normal”. “Estou fazendo fisioterapia desde o final de maio do ano passado. E ainda não me recuperei. E sei que ainda vai levar um tempo, com dedicação, para voltar ao normal. O acidente pra mim mudou tudo. Eu não posso trabalhar, estou parada, tenho dificuldade para me deslocar e dependo da muleta. Tive de parar tudo”, informa.
A renda da família despencou junto com o corpo de Edimélia na colisão. “Eu trabalhava por conta própria. Preparava os alimentos, a marmita e também saia para ajudar a entregar. Estou parada desde abril. Fiz cirurgia, coloquei placa e pino. Mas estou ainda com muita dificuldade para esticar a perna. Acidente com moto expõe muito, machuca bastante. Nesse eu quebrei o joelho esquerdo. Fazia 15 anos que usava motos. Está muito difícil. O acidente gerou um transtorno muito grande”, prossegue.
Sequelas físicas? “Ainda dói muito e tem dia em que eu não consigo nem por o pé no chão”, cita a bauruense. O jornalista Marcus Lopes Domiciano nunca mais vai esquecer o entardecer do dia 17 de outubro de 2013. Um caminhão fez conversão a esquerda e, segundo o registro, não viu ele com a moto. “Para não entrar direto nas ferragens, eu cai com a moto escorregando para debaixo do caminhão”, lembra.
Consequência: “Quebrei a bacia em múltiplos pedaços. Como os ossos esfacelaram, isso destruiu a bexiga, que teve de ser reconstruída, e tive o rompimento de todo o canal da uretra. A base da coluna também trincou”. Só depois dessa saga hospitalar é que Marcus começou a apresentar sinais mais claros de melhora.
“Parado e com dor”
| Alex Mita |
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| Dirceu Aparecido de Castro fraturou o pé e a clavícula em acidente onde era passageiro de uma moto |
Cada sessão de fisioterapia é sinônimo de dor para Dirceu Aparecido de Castro. Um acidente, também com moto, mas com ele como passageiro, tira seu sono e sossego. “O acidente foi no início do ano, mas parece que as dores não têm fim. Fraturei o pé e clavícula e dói muito quando mexe com os dedos da mão. A batida foi com um carro e a moto sempre leva a pior. Eu era passageiro e sofri as consequências”, cita.
Dirceu conta que trabalhava como despachante. “Estou parado, com dores, com sequelas que atrapalham muito, mas minha situação ainda está longe de ser resolvida. Estou entrando com o processo no INSS, mas no início agora foi indeferido meu caso. Disseram que eu tenho de voltar a trabalhar. Mas como? Nem mexer os dedos consigo, o braço também dói e a clavícula também tem problema”, lamenta o bauruense que, para piorar, mora sozinho.
Uma questão além do estado físico o preocupa muito: “Convivo com as dores, é difícil. Mas estou bem preocupado porque não sei como vou comer, me vestir. Estou sem nenhuma renda para tocar minha vida”, finaliza.

