Tribuna do Leitor

Carnaval: a desinformação da população é alimentada

Henrique Perazzi de Aquino, jornalista e professor de História
| Tempo de leitura: 3 min

Bauru não está mesmo lá essas coisas em muitos quesitos e isso não é de hoje. Só que agora virou moda jogar as culpas das mazelas mal resolvidas da cidade no Carnaval. Eis o mais novo vilão pela cidade estar mal das pernas. Interesses inconfessáveis despontam insuflando incautos para uma adesão a linha de pensamento único: o dinheiro gasto com a festa poderia ser utilizado para tapar buracos. Muitos desconhecem os procedimentos administrativos, a segmentação financeira em cada Secretaria, sabemos disso e só querem ver resolvidos seus percalços diários, o que é justo, mas outros gostam mesmo de não explicar nada e confundir muito. Nesse balaio, o senso comum acaba virando retórica de um único enredo. De alguns não se espera outro discurso, mas vindos do seio do povão, sentimento de pura tristeza. “Sou contra gastarem o que não se tem com essa besteira. Cidade acabada, esburacada, tanta coisa para fazer e liberam nosso dinheiro para isso. Seria essa a prioridade maior?”, leio por aí.


É mesmo difícil deixar de ir na onda de que a solução possa passar por essa via. Existe toda uma rede a alimentar esse discurso. Muitos refletem melhor e não entram nessa, mas sei também ser muito mais fácil aceitar como correto o discurso da verdade absoluta, uma que não quer contextualizar nada, muito menos discutir o tema na sua profundidade. Prefere o raso discurso pronto e acabado. Virou moda. Manipular o pensamento coletivo ao seu bel prazer e para atender suas conveniências, eis a questão. Um graúdo qualquer veio a público afirmando em alto e bom som ser o Carnaval coisa do diabo, que o povo não pode festar e joga ao léu que, eternos problemas de uma cidade poderiam ser solucionados (ou mesmo minimizados) com a utilização de verba destinada para o Carnaval com o tapa buracos. Sim, reverberar é sempre mais fácil do que contextualizar a discussão.


Bauru não banca, não subsidia o Carnaval. Seria um erro fazê-lo na sua totalidade. Ocorre uma contribuição pública como forma de incentivo para que a festa ocorra. O retorno financeiro auferido pela cidade é imensamente maior do que o despendido dos cofres públicos. Existe toda uma cadeia produtiva por detrás da festa e ela faz crescer o bolo, amplia possibilidades. Os ganhos são imensos e, pelo visto, são desprezados na superficial análise sendo propagada ao vento. Isso tudo é menosprezado, ignorado diante do buraco na frente da casa do contribuinte. Os cofres municipais não devem ser um balaio de gatos. E o pior disso tudo é que o primo pobre, nesse caso a Cultura, sempre paga o pato diante dos primos ricos que não souberam fazer o dever de casa a contento e o ano todo. Já alimentar o populismo barato e eleitoreiro, isso pode e sempre.


Que ocorra a cobrança por uma cidade mais limpa, moderna, menos esburacada, com melhor Saúde, Educação, transporte digno e adequado, lazer a contento, habitação e impostos justos o ano todo. E que se destinem também mais verbas para a Cultura, consequentemente para o Carnaval. Quando uma coisa inviabiliza a outra, baita sinal de algo não estar lá muito bem. O grande negócio é não comprar gato por lebre saindo por aí externando o primeiro discurso encontrado pela frente. A maior festa popular brasileira merece ter um incentivo a mais do poder público, pois envolve as massas, gosto e preferências de uma nação. Enfim, o dinheiro para tapar o buraco e para bancar o médico no seu plantão é um e o do Carnaval é outro. Saem do mesmo cofre, mas possuem roteiros e destinos diferentes. Misturando tudo já não é nem Carnaval e sim, bagunça.

      

Quero pular meu Carnaval, ver os buracos tapados (não remendados) e tudo o mais ocorrendo a contento, pois do contrário um dos lados ficará manco, caolho e até doente. E pelo visto, mesmo com problemas, vejo isso sendo possibilitado na cidade. Parabéns pela firmeza de nosso Executivo (nessa questão) em não se deixar levar por cobranças um tanto fora de propósito. Que venha logo a festa!

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