Como tudo neste país é feito nas coxas e, como consequência, gera um mundo de trapalhadas e confusões, estamos diante de mais uma entre as inúmeras “tropicadas” do PT. Como não fui consultada para dar opinião a respeito da proposta da Base Nacional Comum Curricular (BNC), prevista pelo Plano Nacional de Educação, não tenho os dados que gostaria para fazer uma crítica consistente sobre o que a petralhada está tramando desta vez. O que eu sei a respeito é o mesmo que você, isto é, quase nada. Se não pegamos pequenas notas em jornais, uma anotaçãozinha aqui, um parecer acolá, não ficamos sabendo de nada. Isso me leva a crer que o Ministério de Educação (MEC) faz isso de propósito: quanto menos gente meter-se a dar sugestão tanto mais isso estará de conformidade com o sistema.
Vamos ao que interessa. Pelo que apurei até agora, no ano passado o Plano Nacional de Educação propôs um projeto para uma Base Nacional Comum Curricular (BCN) que, segundo o MEC, foi elaborado por “especialistas” que não sabemos quem são. Por que esse segredo todo? Acaso não temos direito de saber quem está metendo suas garrinhas no plano de educação de nosso País? Mais uma vez, o PT age como se fosse o dono desta terra e nós meros colonos.
Continuando. Os dirigentes do MEC afirmam terem recebido, por meios eletrônicos, cerca de 10 milhões de sugestões. Só que, assim como não sabemos se essas mensagens foram aceitas ou recusadas, também, obviamente, o MEC não deu oportunidade para um confronto público de ideias. Como esses 10 milhões de sugestões foram processados? Isso é fundamental para o futuro do sistema educacional. Pelo que li a respeito, o texto não é lá grande coisa. Parece que a língua pátria continua não sendo o forte do PT (Até agora ainda não descobri onde está o grande mérito desse partido).
A proposta não define sobre a complexidade de textos que alunos de cada etapa devem conseguir ler e entender. É chover no molhado dizer que não está alfabetizado quem não decodifica um texto. Trata-se, portanto, de assunto fundamental, ao qual se deveria dar a máxima importância e definição. Vejam o que diz Ilona Becskeházy, mestre em educação pela USP: “O que se vê são aprendizados desconectados. Por causa da cortina de fumaça ideológica, não há conceitos, tais como no currículo francês, que determina modelo de parágrafo que o aluno deve ler em um minuto para verificação da fluência. Falar nisso aqui é pedir para ser chamado de fascista”. Paula Louzano, da Faculdade de Educação da USP, afirma que “o que se espera do texto narrativo do aluno brasileiro do 9o ano é parecido ao que o currículo dos Estados Unidos exige dos estudantes do 5.º ano”. Estamos sempre defasados, atrasados, inferiorizados.
Há grandes vieses ideológicos na minuta da BCC, como já era de esperar, também na área de história. Fizeram um oba-oba em torno da história africana e ameríndia e desprezaram os fundamentos da civilização europeia. Acaso você acha que eles iriam deixam de enaltecer o tema da escravidão e dos índios e não olhar com menosprezo para a cultura dos brancos de olhos azuis? Depois, os preconceituosos são os outros...
O conceito de fração na minuta do BCC só entra no 4.º ano do ensino fundamental. Para os especialistas o aluno deve entrar em contacto com o tema já na pré-escola. O estudo da ideia da parte pelo todo (a fração) é fundamental. A proposta também estabelece que - andando como canguru -, o aluno do 1o ano fundamental deve contar pelo menos até 30. Sabe quanto, na maioria dos países, o aluno precisa saber contar? Até 100.
Agradeço as informações prestadas pelo Estadão, sem as quais este artigo ficaria mais pobre ainda. Os dados à minha disposição, de segunda mão, não me permitiram maior contundência. Na realidade, porém, creio que consegui o que desejava mostrar. Essa “agremiação” petista age na surdina, propõe medidas educacionais feitas por “especialistas” anônimos, eivadas de incorreções e desconhecimento pedagógico, impondo, forjando uma uniformidade ideológica, marca principal de quem não permite pensar diferente daquilo que ela pensa. As grandes ditaduras da história tiveram por alicerce o que a escola introduzia como funil na cabeça do aluno. Quando queriam grandes massas bem nutridas, que poderiam gerar alguma inventividade, apertavam o ferrolho. Quando, porém, queriam um povão teleguiado, manobrável, incapaz de pensar por conta própria, proporcionavam um ensino sem qualidade, preconceituoso e inconsistente. Acorda, Brasil!
A autora é professora aposentada da Unesp