Seja você um folião feliz com fôlego para a festa - ou um furioso forçado a frequentar folias -, uma coisa é certa: o mais legal do Carnaval são as marchinhas. Num evento cada vez mais povoado por celebridades narcisistas, nada melhor do que uma marchinha para baixar a bola. E não é que o “rei das marchinhas” está vivinho da silva?!?! Chama-se João Roberto Kelly, 77 anos de inventivas carioquices. Eu mesmo, há alguns anos, pude comprovar numa tarde de sol: lá estava ele sendo homenageado num carro de som em Ipanema.
Em recente entrevista do jornal “O Dia”, Kelly disse ainda se emocionar por ter suas músicas lembradas no Brasil. “Todos os blocos tocam as minhas marchinhas. Não ouço isso com os ouvidos, mas com o coração”. Aliás, a história de suas marchinhas eternas, como “Maria Sapatão”, “Colombina” e Cabeleira do Zezé” agora estão no livro “Cabeleira do Zezé e Outras Histórias” (Ed. Irmãos Vitale), lançado em dezembro.
Ultimamente, com tudo sendo considerado politicamente incorreto, até as marchinhas já viraram alvo de polêmicas. Bobagem. É preciso entender o contexto no qual estavam inseridas e relaxar. Por aqui, aliás, também gostamos. Não só nos clubes, mas em blocos como o “Bauru Sem Tomate É Mixto” que, ontem, saindo da Praça Rui Barbosa até a Machado de Melo, apresentou a inédita “Bagunça no Coreto”.
A letra de Silvio Selva ganhou vida com o grupo Kananga do Alemão e, tendo Tatiana Calmon como puxadora, mandou seu recado salpicado por espírito crítico, com humor: “Entregaram o viaduto / Faltou a outra mão / Na reforma da pracinha / Só trocaram lampião...”.
Na época de Kelly, os costumes e as cutucadas tinham outras nuances. Se ontem, por aqui, a transexual Sara Fernandes foi homenageada pelo “Bauru Sem Tomate...”, lá pelos idos de 1963 as provocações eram mais, digamos, comportamentais. Tanto que foi um garçom cabeludo, fã dos Beatles no auge do iê-iê-iê e chamado José Roberto, o inspirador de Kelly em “Cabeleira do Zezé”. O “bicha!” da música foi inserido pelo povo depois, não está na letra original, que deixava as coisas subentendidas.
Em pensar que John Lennon morreu sem saber que sua cabeleira havia, de certa forma, inspirado uma marchinha que colocava em dúvida a masculinidade de alguém. E daí? Se soubesse disso hoje, lá de seu céu com diamantes, John mandaria um recado a João: “Gostei! Seja como for, tudo o que a gente precisa é de amor”.
O autor é editor executivo do JC