Quanto mais leio jornal, mais me assusto. Na Holanda, aulas de autoescola agora podem ser pagas com sexo. Os ministros dos transportes, Melaine Schultz, e da justiça, Ard van der Steur, em resposta a uma consulta, afirmaram que, embora “indesejável”, oferecer aulas de condução de veículos, tendo o sexo como forma de pagamento é perfeitamente legal. O que não se aceita – afirmam os ministros – é o oferecimento de sexo mediante remuneração, isso seria prostituição. Se bem entendi, transar por dinheiro nem pensar, mas pedagogicamente tá valendo.
O problema é que, em nome da isonomia, professores (professoras também, por que não?) de outras matérias poderão pleitear equiparação. Não só eles, mas os prestadores de serviço em geral, todos se dizendo filhos de Deus. Seria o caos... E já me ocorre outro problema. E se a mulher - pode ser homem também, por que não? - for muito feia ou feio e nada desejável? O professor ou professora da autoescola podem exigir dos coitados pagamento em dinheiro? Seria odiosa discriminação. Ainda que prejudique a higiene do texto, registro a dupla possibilidade de gênero porque, em tempos do “politicamente correto”, o mundo costuma cair sobre a cabeça do redator incauto. O que se dá a João deve ser dado a Maria.
A mulher obteve conquistas históricas na luta pela igualdade. No trânsito, porém, nada aconteceu. Nas ruas e avenidas, elas continuam sendo sonoramente homenageadas: “navalha, barbeira, tirou carta por telefone?” Fico imaginando o que não terão de ouvir agora, que a carta não mais seria “tirada por telefone”, mas “a partir dele”.
Essa notícia, claro, escandaliza, mas pensando bem, do jeito que a coisa anda, a coisa tinha que chegar aonde chegou. A história já começou salgada. Quero dizer: o sal já foi moeda. Como todo cristão precisava de sal, tudo se vendia por porções de cloreto de sódio. Aliás, é da moeda sal que vem o termo “salário”, se bem que “salgadas” são as despesas e não o pagamento recebido. Depois, foi a vez do boi virar moeda.
Como todo cristão gostava, como ainda gosta, de um suculento bife, tudo se vendia por um boi ou naco dele. Recorrendo novamente à etimologia, veremos que “boi”, em bom latim, é “pecus”. Por isso, as palavras “pecúnia”, “pecúlio” e “pecuária”. Partindo do princípio de que toda moeda deve atender a dois requisitos – primeiro, ser de interesse geral; segundo, facilitar a praticidade do negócio - fica fácil entender as vantagens da moeda sexo: a “transação” com o sexo estimula o “negócio”, já que, sendo a moeda natural, todo mundo a tem e nenhuma dificuldade haveria em gastá-la prazerosamente. Não nos esqueçamos, também, da praticidade: muito complicado seria pagar alguma coisa levando um saco de sal nas costas. Imagine, então, uma vaca!
Olhemos a questão, agora, pela perspectiva do produto. Hoje, tudo se vende: rim, fígado, coração, barriga (de aluguel claro), virgindade, a alma para o diabo e, a peso de ouro, votos no Congresso. Talvez seja melhor perguntar o que o dinheiro não compra. Segundo Nelson Rodrigues, compra tudo, até amor verdadeiro. E se o dinheiro, compra tudo isso, o que o sexo, energia gritante nos mortais, não compraria? Impossível sabê-lo.
E tem mais: se tudo, hoje, se compra, também, hoje, tudo se troca. O escambo nunca deixou de ser prática cotidiana. Qualquer objeto inservível é logo trocado tanto em feiras públicas, como nas da internet. Aliás, o ato de trocar faz parte da cultura e como tal está bem vivo, até mesmo no terreno movediço da sexualidade.
Há casais se trocando em práticas de “swing”, marido trocando mulher de 60 por uma de bem menos, mulher fazendo o mesmo, porque chumbo “trocado” não dói. E, desde muito cedo, a molecada descobre o “troca-troca”. Então se a coisa é mesmo assim, penso que nada se haverá de fazer. Com os meus botões, fico então me perguntando: trocar aulas de direção por sexo seria mesmo coisa na contramão?
O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras: curso_romag@uol.com.br