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Escolas surpreendem no segundo dia

Aline Mendes
| Tempo de leitura: 4 min

A canção diz “Quem não gosta de samba, bom sujeito não é”. Muita gente não gosta e isso deve ser respeitado. Mas quem critica a realização da maior festa popular e cultural do País podia dar uma espiadinha no Sambódromo, aqui mesmo de Bauru, e observar a alegria na arquibancada e na passarela do samba.

Tem música, dança, artes plásticas, interpretação, história e homenagens, conscientização política e ambiental, trabalho em equipe e ação social nas comunidades. E o mais importante: têm sorrisos e diversão para quem dá duro o ano inteiro, dentro e fora do Carnaval.

Foi nesse clima que quatro blocos e quatro escolas de samba desfilaram na noite de segunda e na madrugada de ontem, em Bauru. Devido ao horário de fechamento do JC, a passagem dos blocos foi publicada na edição de ontem. Hoje você confere os detalhes das agremiações.

Azulão: maioridade no samba

“Bate na palma da mão/ Sacode a galera/ Bate na palma da mão/ Segura ‘batera’/ Sou Azulão, sou Carnaval, sou Alegria/ 18 anos de Amor e de Magia”. Com esses versos a Azulão do Morro, a primeira a desfilar, realmente sacodiu o público que encheu as arquibancadas do Sambódromo.

Com quase 700 componentes, a escola do Parque Jaraguá contou a própria história no enredo “Azulão em festa: pelo sim, pelo não, somos eternamente Azulão, 18 anos de alegria e valorização da nossa cultura”. 

Na avenida, destaque para o projeto social Sementes do Azulão representado por alunos das escolinhas de música, teatro, capoeira e Carnaval, com quatro casais de mestre-sala e porta-bandeira mirins. Entre eles, os primos Emily e Lian Cassiano, de 13 e 14 anos. “Desfilo desde os 8 anos, mas é a primeira vez como porta-bandeira. É uma emoção!”.

Os casais foram treinados por Aparecida Brito Caleda, a Cida do Azulão, vice-presidente, alegorista, costureira e porta-bandeira da escola. “Senti que sacudimos mesmo a galera e, apesar das dificuldades, foi tudo maravilhoso”.

Zona Leste vai a Araxá

Sem sair do Sambódromo, o público fez uma viagem à cidade mineira de Araxá com a Tradição da Zona Leste, do Núcleo Mary Dota, pelo enredo “Terra da água encantada, da primeira alvorada, do solo fértil e produtivo. Um verdadeiro paraíso chamado Araxá”.

Renovada pela presença de novos diretores, ritmistas e foliões, a agremiação passou pela avenida com cerca de 500 componentes.

Um deles chamou a atenção não só pelo samba no pé, mas pelo carisma e pela companhia. Marcio Kabel, 36 anos, desfilou como rei da bateria “Furiosa” com seu filho, o príncipe Thaike, 6 anos. “Comecei no Carnaval criança e gosto demais. A gente passa estresse na vida, dificuldades para sair com a escola e aqui vive a alegria conjunta com quem veio sambar e assistir”.

Chiquinho Saes, multitarefa na escola, comemorou a evolução da Zona Leste dentro e fora da avenida. “A gente vem de uma reformulação, leva tempo, mas fizemos um desfile bacana”.

Empolgado também estava um dos puxadores do samba, Wilson Tavares. “A gente interage com a plateia, é muito bom”, disse sem saber quantas vezes repetiu a música.

Coroa Imperial traz América Latina

Levar para a passarela do samba uma ala coreografada foi um dos diferenciais da Coroa Imperial da Grande Cidade, que veio com 500 componentes e o enredo “América: mestiça, mãe terra”.

“Não dá para trabalhar com passo marcado sem envolvimento. Só conseguimos porque temos uma comunidade fortalecida”, afirma o carnavalesco Claudio Goya.

Como professor doutor do curso de design da Unesp de Bauru, há três anos ele desenvolve com alunos o Projeto Laboratório de Design Solidário na escola. “Devo contribuir de outras formas e espero que a universidade tenha deixado um legado na escola”, completa. Michele de Andrade era sua assistente e deve assumir a função no próximo Carnaval.

Os povos ameríndios, portugueses e africanos, a cultura, as crenças e as belezas naturais da América Latina foram retratados em fantasias caprichadas pela escola sediada no Núcleo Presidente Geisel. “Está tudo lindo e a gente se emociona porque o amor de cada um pela escola é muito grande”, partilhou a Rainha de Bateria, Karen Souza, de 17 anos.

Anastácia na Tradição da Bela Vista

Como forma de homenagear a luta dos afrodescendentes por igualdade e valorização da cultura negra, a Tradição da Bela Vista encerrou o Carnaval 2016 em Bauru com o enredo “Sua beleza a condenou a viver com máscara de ferro, escrava Anastácia, mártir e heroína”. 

Importante figura feminina da história negra, escrava Anastácia era curandeira e, após sua terrível condenação e morte, passou a ser cultuada como santa, um mito religioso na crença popular. Essa saga foi contada na passarela do samba por cerca de 400 componentes de forma harmoniosa.

Na comissão de frente, jovens desfilaram descalças lembrando os negros perseguidos. “Desfilo desde os 5 anos, está no sangue. Vem da minha sobrinha de um ano até minha avó de 65 anos. É um amor inexplicável. Para desfilar descalça tem que amar mesmo!”, ressaltou Juliene Araújo, de 17 anos.

Wilson Tavares, que puxou o samba na Zona Leste, repetiu a dose na Tradição. “A gente sente um pouco a garganta, mas a empolgação é maior, graças ao calor da arquibancada e até dos jurados”.

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