Tribuna do Leitor

Retratista

Roque Roberto Pires de Carvalho. E-mail: maryroque@uol.com.br
| Tempo de leitura: 4 min

Programou para o final da semana visitar suas irmãs, eximias em guardar memórias e lembranças retratadas. Esta seria a oportunidade de tentar decifrar como aquelas personagens, reveladas há mais de cem anos, permaneciam estáticas em seus lugares, delineando a figura humana com seus traços fisionômicos indelevelmente marcados. Abrir o baú e encontrar o primeiro dentre tantos álbuns era um desafio. Figuras tão desconhecidas e tão próximas pela consangüinidade! Seria verdade e possível algum reconhecimento?


Coragem era a palavra-chave. Apoiado em suas irmãs, ele se preparou para retornar no tempo, tempo que não conheceu e não vivenciou.. Olhos lacrimosos logo no primeiro volume; álbum de capa em cartolina grossa e pesada, fecho de elástico já esgarçado pelo tempo. Era o álbum de seus avós paternos. Conforme informado, era costume retratar a família inteira e nessa linha, uma ordem hierárquica era obedecida. Cadeiras acomodavam os pais ao centro e lateralmente os filhos homens, todos elegantemente trajados e de bigodes aparados. Filhas eram alinhadas atrás das cadeiras, ficando em pé exibindo a elegância dos penteados, colares e pulseiras. O avô ostentava longas barbas grisalhas e a avó, vestido de sobriedade longo e gola rulê. Ausente alguém da irmandade para a foto, esse alguém era substituído por um guarda-chuva que ficava discretamente pendurado no espaldar de uma cadeira. Assustou-se!    


Será que essas pessoas tão importantes em sua vida ainda o acompanhavam? Pergunta incrível para uma resposta prosaica e trivial pois, ao fechar aquele álbum e recolher-se à biblioteca observou que bem em frente à sua mesa estava emoldurado por um quadro fixado na parede a foto de um casal, aparentemente muito jovens no ano de 1915. Era retrato dos pais no dia do casamento. No retângulo do quadro deixaram seus semblantes hoje silenciosos, olhos fixos no futuro e no futuro de seus sucessores e, provavelmente, pedindo para não serem esquecidos.


Após essa visão, ele não teve mais coragem de abrir gavetas e outros guarda-roupas ou observar paredes, pois se assim o fizesse, poderia encontrar o amor, o maior amor de sua vida e que também havia atravessado para o outro lado da rua. (Santo Agostinho). Dos retratados não restou ninguém... (“Cadeiras vazias. Magalhães, Roberto – JC.18/9/15”). Silenciosamente os figurantes deixaram transparecer o desejo humano de continuarem vivos para sempre e ao abrir ou reabrir aquele ou outros álbuns, sentimos a mesma sensação da nossa efêmera perenidade.


Enquanto não acontecia uma experiência nova, ele tentava recordar-se de ter visto em algum lugar da sua infância a figura humana que atendia pelo pseudônimo de Lambe-lambe. No jardim que era o seu local de trabalho aguardava a presença dos que desejavam ser retratados. Não demorava muito. Era comum o jovem solteiro pedir para ser fotografado fazendo pose de um galã do cinema americano. Para esse candidato e se houvesse necessidade, o retratista guardava em uma gaveta bigodes postiços, costeletas em vários tipos, gravatas comuns estampadas ou gravatas tipo borboleta , cores variadas em tecidos de cetim.


Era trivial os casais em lua-de-mel pedirem um retrato. Uma irmã casada em 1936 procurou no Jardim da Luz, em São Paulo, registrar para a posteridade o inesquecível acontecimento. Os dois já atravessaram para o outro lado da rua mas o retrato está firme, íntegro, verdadeiro e, por que não dizer, saudoso... Para o retrato ficar bom e bonito havia um ritual preestabelecido. O retratista dava os retoques nos personagens oferecendo gumex (fixador) ou brilhantina para o cabelo do varão, ajeitava seu paletó no ombro, acertava o nó da gravata e oferecia para a dama um chapéu de feltro com um discreto véu disfarçando o olhar.


A elegância das mulheres francesas da época era valorizada pelo retratista de plantão. Acertado o preço e paga a encomenda, alguns dias após o retrato poderia ser retirado, sempre na coloração preto e branco, colado sobre uma cartolina, recoberto por um papel de seda. Concluído o trabalho, o retratista se preparava para a sua próxima obra de arte. Seguramente, nenhum fotógrafo nos dias de hoje com a modernidade ao seu dispor irá conseguir ter o seu nome e o nome do seu ateliê gravado na cartolina grossa de um retrato como era de praxe. Aliás, fotografias vistas nas máquinas modernamente avançadas possuem a mesma rapidez do vento e a rapidez maior da transitoriedade da vida humana e se, em futuro sempre incerto, alguém desejar sair do foco não poderá esquecer-se de levar seus antigos retratos estampados em cartolina...

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