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Pão-pão, queijo-queijo

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Quem diria. Em Cuba, sob as bênçãos de um dos poucos governos inspirados no marxismo-ateu, o papa Francisco e o patriarca Cirilo, da Igreja Ortodoxa Russa, se encontraram para pôr fim a uma briga que já dura quase mil anos. Vem desde o chamado Cisma do Oriente (dissenção religiosa), ocorrido no ano 1054. O insólito é que essa briga milenar começou com a discussão sobre receita de pão. Aquele usado na eucaristia. Roma defende desde o século XI, que a comunhão do fiel com o corpo de Cristo deve se dar com o pão ázimo (sem fermento, levedura) e a Igreja de Constantinopla (hoje Istambul) prega o contrário. O pão servido na Santa Ceia era fer-men-tado. 

É claro que nada é tão simples assim. Já ocorriam dissenções culturais e políticas profundas, desde a divisão do Império Romano em Oriental e Ocidental. A verdade é que a briga evoluiu com as disputas sobre a autoridade papal. A Igreja Ortodoxa (orto = verdadeira e doxa = reta, direita, justa) é dividida em patriarcados. Roma, “a mãe de todas as igrejas”, tem um pontificado, ou autoridade única. O patriarca Cirilo, que beijou e foi beijado por Francisco, tem na sua jurisdição russa 200 milhões fiéis.  

Sem acordo, a briga evoluiu para a discussão teológica sobre a natureza do Espírito Santo. Aquele “mistério da santíssima Trindade” que a gente aprendia nas aulas de catecismo, sem nada entender. “Se é mistério, não precisa entender. Tem que aceitar” – dizia o padre Firmino. São três pessoas divinas num só Deus. Um nó mental. Os ortodoxos não aceitam. O Espírito Santo procedeu de quem? Do Pai ou do Pai e Filho. Para o católico romano, Pai e Filho. Dez séculos passaram e as partes não chegaram a um acordo sobre a chamada questão “filioque” que, em latim significa “e filho”. O “e” é o busílis.  Este pequeno grande problema gerou excomunhões de ambas as partes, só levantadas em 1965 por Paulo VI e Atenágoras.

Milagres acontecem. Quando Francisco for beatificado, o encontro de Havana poderá ser invocado para promove-lo a santo da igreja católica romana. A conversa com o patriarca Cirilo, desta vez foi de pessoas que entendem o seu papel na história, acima das discussões bizantinas. Querem uma ação urgente para prevenir nova expulsão dos cristãos do Médio Oriente. Ao levantar a voz em defesa dos cristãos perseguidos, exprimem igualmente a sua “compaixão pelas tribulações sofridas pelos fiéis de outras tradições religiosas, também eles vítimas da guerra civil, do caos e da violência terrorista”.  Os “irmãos na fé cristã”, com se definem, não poderiam ficar alheios aos efeitos da hecatombe na Síria, que dura cinco anos, produziu meio milhão de mortos e quase 2 milhões de ferido. Os 4 milhões de refugiados só querem pão, com ou sem fermento. O diálogo inter-religioso e a responsabilidade dos líderes religiosos na recusa de ações criminosas, muitas delas “em nome de Deus”, deve servir à construção de um mundo habitável.

Quem sabe Francisco possa operar um outro milagre no México. Vai à Ciudad Juarez, capital do narcotráfico, cenário de uma guerra que já matou 200 mil pessoas. Será uma bênção se fizer entender que o comércio de drogas existe porque não há oportunidade de sobrevivência em outra atividade econômica, num país ainda pobre. Ainda mais quando tem por vizinho, acima do Rio Grande, a hegemonia econômica dos Estados Unidos. Os mexicanos traficantes podem estar longe de Deus, mas muito perto dos americanos. Como reconhecem Francisco e Cirilo, no documento firmado em Havana, “A crescente desigualdade na distribuição dos bens na terra aumenta o sentimento de injustiça perante o sistema de relações internacionais que se estabeleceu”.

A renitência do pão-pão, queijo-queijo, de mil anos atrás, pode render boas coisas para a humanidade, depois de tanta espera.  Os maiores avanços costumam acontecer a partir das coisas mais cotidianas. A criança que primeiro perguntou “por que a Lua não cai ?”, propiciou a Copérnico, Galileu e Newton a iniciarem uma revolução que mudou o mundo. O mundo das ideias e de olhar o universo. A detecção de ondas gravitacionais anunciada quinta-feira, é o último grande passo da física em resposta à pergunta inocente, mas cheia de lógica, daquela criança. Talvez, honestamente, não tenhamos ideia para que servem essas ondas gravitacionais, mas temos boas razões, históricas e filosóficas, para suspeitar que uma descoberta que afeta uma pergunta tão simples, só pode trazer boas aplicações que não imaginamos agora. Faça de novo a pergunta daqui cem anos.

O autor é jornalista e articulista do JC  

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