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Entrevista da semana: Jair Odria

Aline Mendes
| Tempo de leitura: 6 min

Alex Mita
Ele comanda, com muita classe, a Mocidade Unida 

da Vila Falcão, campeã do Carnaval bauruense

A voz suave e tranquila ao conversar com a reportagem nem parecia a mesma que levantou com força e empolgação cada uma das alas da Mocidade Unida da Vila Falcão antes do desfile que garantiu à agremiação o título de campeã do Carnaval 2016 em Bauru.

Jair Fontão Odria, presidente da escola, não parece, mas tem 73 anos, 40 deles dedicados ao Carnaval. E levou familiares e amigos para compartilhar a vocação. “Todos que fazem parte da minha amizade estão até hoje”.

Natural de Bauru, há alguns anos foi morar na Capital paulista para cuidar dos pais, mas nunca perdeu o vínculo, nem os compromissos da escola. “Durante o ano todo fizemos vários eventos, feijoadas, jantares e pagodes para arrecadar recursos para o Carnaval. Temos uma equipe muito boa, mas eu sempre vinha participar”.

Ainda nesse ano, Odria pretende voltar de ‘mala e cuia’ para Bauru. “Meu coração sempre esteve aqui”. E não é segredo para ninguém que ele bate forte pela escola de samba da Vila Falcão.

Com os demais membros da diretoria, já está pensando em possíveis enredos para o próximo ano. Porém, por enquanto, os olhos brilham mesmo ao falar da conquista deste ano. Confira trechos da entrevista!

JC: Como começou sua história no Carnaval?

Odria: Quando eu trabalhava na escola Xavier de Mendonça, tomava conta da sua banda marcial. A gente viajava por várias cidades para participar de concursos e, quando chegava, fazia um Carnaval na praça. Assim ela ficou conhecida como banda do samba. Em 1975, quando criaram a escola de samba Camisa 10, do Bela Vista, e nós da Vila Falcão, várias famílias, resolvemos fundar a Mocidade Independente. 

JC: O senhor já começou à frente da escola?

Odria: Primeiro me convidaram para ser diretor e relutei, porque já estava com duas crianças pequenas em casa, mas a minha esposa, Floriza, me incentivou. Para minha surpresa, no dia seguinte que aceitei ser diretor, fui escolhido presidente. Aí vieram os títulos de 1976, 77, 78, 79 e 83, todos na minha gestão. A Mocidade Independente desfilou de 1976 a 2001, venceu 13 vezes o Carnaval, foi vice-campeã 11 vezes e teve um 3º lugar.

JC: E por que a Mocidade Independente deixou de existir?

Odria: Houve um problema de gestão e o pessoal começou a não comparecer mais. Eu nunca deixei a Mocidade Independente. Tentamos voltar em 2011 e elegemos uma nova diretoria completa, mas na hora do registro da ata em cartório tinha o pedido de outra pessoa para administrar a escola, concedido pelo juiz por 90 dias. Daí não houve mais jeito de tentarmos nada. Fazia tempo que o pessoal falava em fundar uma nova escola e, como não conseguimos levantar a Mocidade Independente, criamos a Mocidade Unida da Vila Falcão em 13 de março de 2014.

JC: Como se deu esse processo de reconstrução?

Odria: Foi muito difícil porque não havia mais a credibilidade do nome Mocidade... Havia relutância e desconfiança. Muita gente duvidava que nós conseguiríamos colocar a escola na avenida, mas graças ao número de pessoas que aderiram e ao pessoal da velha-guarda da Mocidade, conseguimos. Mesmo com dificuldade, desfilamos com 420 pessoas, quando o mínimo era 220. E tem muita gente nova querendo aderir.

JC: A que atribui a vitória da Mocidade Unida nesse ano?

Odria: Foi a força de uma equipe, de todos os colaboradores. Nosso barracão estava lotado todos os dias de pessoas trabalhando nos carros ou nas fantasias. Muitos queimaram o dedo na cola quente. Vários chegavam às três horas da tarde e saíam às duas horas da manhã. O carnavalesco Jorge Santtanna é muito detalhista, caprichava nas fantasias e demorava, mas valeu a pena. O trabalho foi muito bom. E ele tem uma humildade surpreendente, fugiu dos holofotes. No final, começou a enroscar um dos carros, por causa da serpentina e sujeiras, e ele ajudou a empurrar para chegar até o final.

JC: A organização desse grupo contou pontos?

Odria: Fez toda a diferença. Têm as cabeças pensantes, aquelas que compõem a diretoria e ajudam no dia a dia, porque se cada um fizer o que quer, vira anarquia. Quando há divergência, a gente vem com a voz da experiência. Tem os que me escutam porque foram alunos do colégio que eu trabalhava, é um respeito que vem de antigamente.

JC: E a empolgação na hora do desfile?

Odria: Nós temos um grito de guerra e costumo passar de ala em ala falando o quanto aquela ala representa para a escola. Disse: temos tudo para ganhar o título, porque estamos com excelentes fantasias e alegorias e só faltava o calor humano para completar o que fizemos no barracão. Pedi que todos cantassem e dessem tudo de si. E graças a Deus todo mundo se empolgou, fez o melhor e o resultado foi a vitória.

JC: A presença do Marcos Pontes foi um trunfo?

Odria: Foi uma surpresa para as pessoas. O nome dele representa muito por ser o primeiro brasileiro a ir para o espaço e a gente precisava dar uma ênfase. Hoje as imagens dele na Mocidade Unida estão rodando o mundo. Sempre trouxemos convidados de fora e procuramos inovar.

JC: Estrear bem e no segundo ano conseguir o título é uma superação?

Odria: Sem dúvida. Embora a denominação tenha mudado, a superação foi enorme. A Vila Falcão ficou com dois blocos, o Pé de Varsa, do qual fiz parte, e Império da Lagoa do Sapo, mas sem uma escola de samba e resolvemos ter a nossa Mocidade. Foi até cômico, porque uns queriam Mocidade Alegre, mas a gente estava triste porque a Independente acabou. Então escolhemos entre Falcão de Ouro e Mocidade Unida, nome que acabou ganhando a votação porque ninguém queria tirar o nome Mocidade.

JC: Qual foi a maior dificuldade?

Odria: O local para ensaiar a bateria. Começamos na praça da ITE, viemos para o barracão da escola na rua Prudente de Moraes, tentamos perto do colégio Luiz Castanho de Almeida... Ou chamavam a polícia ou pediam para pararmos. Ensaiamos algumas vezes na Estação Cultural, mas quase todo dia tem reunião das entidades sediadas lá e atrapalhava. Foi difícil.

JC: Como solucionaram?

Odria: O pessoal do bloco Esquadra da Indepa, da Vila Independência, já havia fechado conosco de sair na nossa bateria e nos cederam um espaço na quadra de sábado, num horário que a vizinhança concordou. As duas últimas semanas ficamos na rua São Vicente, na praça, os amigos conversaram com os vizinhos e concordaram. Até a festa do título foi lá e pretendemos continuar até conseguirmos um local adequado.

JC: Há rixa entre as agremiações?

Odria: Não, tem a competição. Quando abre a porteira a gente defende a nossa escola. Naquele momento, quem não é Mocidade está ‘contra’ nós. Acabou o desfile, vamos tomar uma cerveja juntos, bater papo. Sou amigo do Paulo Madureira, do Paschoal Storniolo e de muitos outros da Cartola. O José Horácio (carnavalesco) é cria da Mocidade e depois foi para a Cartola e nem por isso a nossa amizade mudou.

Perfil

Nome: Jair Fontão Odria

Idade: 73 anos

Local de nascimento: Bauru

Profissão: Secretário de escola aposentado

Esposa: Floriza Lucy Tavares Odria. “Fazemos 44 anos de casados nesse ano”.

Filhos: Ana Paula, André Luiz, Bruno e Jair Júnior

Música: Samba

Hobby: Carnaval e futebol. “Fundei e joguei no Independência Futebol Clube, time amador”.

Time de futebol: Corinthians

Para quem dá nota 10: “para minha família que me apoia em tudo”

Para quem dá nota 0: “a todos que estão ajudando a afundar o Brasil. Um País tão rico não podia ter tanta pobreza e essa situação precária na saúde, educação, habitação e segurança pública” 

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