Articulistas

A camionete, a laranja e o Brasil

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 2 min

Fui educado, desde muito pequeno, ouvindo a frase “lugar de lixo é no lixo”. Às vezes me vejo carregando no bolso papel de bala, cupons de compras, copinhos plásticos, até encontrar uma cesta de lixo para descartá-los. Caso não me depare com ela, tudo vai para o lixo de casa. Peguei a época da campanha do Sujismundo, aquele comercial de TV do início dos anos 70 que apresentava, em forma de desenho animado, um sujeito que não sabia o que era uma cesta de lixo e jogava tudo no chão.

Por esses dias, conclui que uma boa parte dos brasileiros não sabe mesmo o que é uma cesta de lixo. Semana passada, dirigindo pela Getúlio Vargas, sentido bairro-centro, segue à minha frente uma camionete com dois ocupantes: o motorista e uma passageira. De repente, salta de dentro da cabine para a rua uma rodela de casca de laranja, lado do motorista. Surpreso com a atitude, no mesmo segundo, lado da passageira, a rua é presenteada com outro naco de casca de laranja.

E assim foi por várias quadras: uma rodela de um lado, seguida por outra do outro lado! Decidi mudar meu itinerário para ter o privilégio de ver o fim da cena imunda. Além das cascas, começaram a cuspir as sementes pelas janelas. Logo percebi que viriam mais coisas pela frente. A cena foi inusitada: a passageira, tão logo acabou de se deliciar da laranja, não teve dúvidas: com muita tranquilidade, jogou o bagaço pela janela. Porém, o descarte irresponsável foi parar dentro de um carro que estava paralelo à camionete.

Perplexo com a visita inesperada daquela sugada fruta, o motorista se dirigiu a passageira por meio de alguns impropérios, reclamando de sua atitude. De nada adiantou: recebeu de volta o dedo em riste! E eu que pensei que, nos meus 52 anos de idade, já tinha visto de tudo nesta vida!

Enfim, a vida segue. Mas depois, com calma, percebi que o roteiro da vida real acima narrado tem tudo a ver com o Brasil que vivemos hoje: sujeira, muita sujeira! A coitada da laranja – uma fruta tão nobre, cheia de vitaminas –, há tempos virou sinônimo de falcatruas, de desvios de dinheiro público, de irregularidades. Sugada até o fim, é o retrato do Brasil atual: murcho, pronto para ser descartado.

Espero, porém, que a “laranja Brasil” tenha um fim mais digno daquela que caiu no colo de um motorista em plena Getúlio Vargas: a lata do lixo, pois pelo menos servirá de adubo orgânico para germinar alguma coisa daquilo que irá sobrar desta terra arrasada.

O autor é jornalista

Comentários

Comentários