Uma parceira pioneira firmada entre a Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB/USP), o Hospital Estadual (HE), Hospital de Base (HB) e Fundação Amaral Carvalho tem devolvido sorrisos a pacientes com doenças graves na cidade. Trata-se de um projeto realizado por professores e alunos da pós-graduação da USP e que pretende, em um futuro não tão distante, tornar Bauru referência na área de odontologia hospitalar.
Estudos do Conselho Federal de Odontologia apontam a boca como o maior foco de contaminação nas Unidades de Terapia Intensivas (UTIs) dos hospitais. E é partir dessa realidade que o projeto é desenvolvido.
Na prática, os hospitais de Bauru encaminham, por meio de demanda dirigida, uma relação de pacientes com enfermidades consideradas graves, como doenças oncológicas, renais crônicas, leucemia, linfomas e pessoas transplantadas e que estão com infecções ou problemas bucais.
Os selecionados, cerca de 150 ao mês, são atendidos pelos dentistas voluntários antes ou depois das cirurgias, em consultórios improvisados dentro dos próprios hospitais ou no ambulatório da FOB.
Com os procedimentos dentários de prevenção, os riscos nos procedimentos cirúrgicos enfrentados pelos doentes diminuem. “Quando o paciente tem uma infecção na boca causada por algum outro problema bucal e vai para a cirurgia, essa situação aumenta muito os riscos. Com o tratamento odontológico hospitalar, é possível diminuir a mortalidade dos pacientes e até o tempo de internação também”, ressalta Paulo Sérgio da Silva Santos, dentista, professor da FOB/USP e coordenador do projeto.
“Os tratamentos químicos acabam fragilizando o organismo e, em consequência, a boca. E esses pontos de infecção atrapalham tanto o pré quanto o pós-operatório do paciente, por isso a importância do acompanhamento”, acrescenta Cássia Fischer Rubira, que também coordena o projeto.
Câncer e metástase
A parceria pública entre universidade e hospitais traz mais conhecimento às dezenas de estudantes do mestrado e doutorado da FOB e também mais alívio aos pacientes com a saúde debilitada.
Acometida por um câncer de mama há alguns anos, a dona de casa Ana Cristina Vianello, 59 anos, teve metástase e acabou com uma necrose na mandíbula anos após a cirurgia no HE. Ela foi atendida pelo grupo na semana passada.
“Se não houvesse esse atendimento, eu teria que gastar muito para poder ficar bem. Esse serviço é uma benção, acabou me ajudando na recuperação. A saúde da boca é muito importante, afinal dependemos dela para a alimentação”, afirma a mulher, que passava por higienização bucal e por uma avaliação no ambulatório da FOB.
AVC
Acometido por um câncer bucal, o caminhoneiro Wilson Montovani, 62 anos, também entrou para a demanda dirigida quando viu sua vida praticamente “estacionar”, após sofrer um acidente vascular cerebral (AVC) há dois anos. Hoje, Wilson depende da atenção em tempo integral da esposa, Lenita Fardini, 56 anos, e dos atendimentos da FOB.
“Não sei como seria se não houvesse esse tratamento gratuito. A cada três meses, o trago para fazer higienização e avaliação do dentista. Não teríamos como pagar algo assim no particular”, afirma Lenita.
Situação parecida com a do pintor Gilberto Galiza, que teve câncer na língua e passou por radioterapia e cirurgia há poucos meses. “São procedimentos que fragilizam e o cuidado com a saúde bucal deve ser especial nesses casos”, enfatiza a dentista e professora da FOB, Cássia Fischer.
Funcionamento
Paulo Santos explica que o projeto começou há três anos, com o HE e o HB. A unidade de Bauru do Amaral Carvalho gera fichas de pacientes para fins de pesquisa.
Hoje, os hospitais cedem os materiais de consumo e salas e a FOB os instrumentais e mão de obra voluntária para os atendimentos.
No HB, a ação foca procedimentos relacionados a traumas. E os trabalhos são coordenados pelo dentista e professor da FOB Eduardo Sanches Gonçales. Os atendimentos ocorrem de uma a duas vezes por semana, dependendo da demanda.
“Esse tratamento não é oferecido em quase nenhum hospital. Aqui, as clínicas têm a finalidade de auxiliar na pesquisa, mas acabamos prestando um atendimento necessário à população”, aponta Paulo. “Unir o estudo à experiência que gera o ambiente hospitalar é um ganho tanto para os alunos e faculdade quanto para a população”, finaliza o dentista.
Dentista obrigatório
Estudos do Conselho Federal de Odontologia apontam a boca como o maior foco de contaminação nas UTI dos hospitais.
Com base nesse estudo, um projeto de lei torna obrigatória a presença de dentistas nos hospitais do País. A regra vale para unidades hospitalares públicas e privadas de médio ou grande porte com pacientes internados ou que atendam a doentes crônicos. Dessa forma, fica assegurada a assistência odontológica a todos os pacientes em regime de internação hospitalar, aos atendidos em casa na modalidade “home care” e aos doentes crônicos, mesmo que não estejam internados.
O projeto foi aprovado no Senado em 2013, mas ainda depende de regulamentação.