| Douglas Reis |
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| Segundo parentes, a família já havia frequentado por diversas vezes o local onde a tragédia ocorreu |
Na manhã desta terça-feira (16), as cinco vítimas que morreram afogadas neste domingo (14) foram enterradas, em Bauru. O sepultamento foi marcado por uma grande comoção generalizada.
O sol escaldante de domingo, o dia mais quente de fevereiro em 16 anos, era convidativo para um programa refrescante em família. Mas, o que era para ser uma passeio divertido acabou se transformando em uma dolorosa tragédia que comoveu os moradores de Bauru.
Pai, três filhos adolescentes e o namorado de uma das jovens morreram afogados em um riacho, afluente do Rio Batalha, no bairro Rio Verde, zona rural do município. A principal suspeita é de que um dos familiares tenha se afogado e os demais tenham morrido ao saltarem no rio, em sucessivas e frustradas tentativas de resgate. Segundo parentes, nenhum dos banhistas sabia nadar e não havia mais ninguém no local.
A tragédia que despedaçou as famílias foi registrada entre a tarde e a noite do último domingo (14). No local, morreram Newton Mello Avante, 44 anos, os filhos Natalia Gabriela dos Santos Avante, 17 anos, Thallyson Natan dos Santos Avante, 17 anos e Nataliely Mariana dos Santos Avante, 13 anos, além do namorado de Natalia, Luick dos Santos Claro, 15 anos.
Com sangramentos e algumas escoriações, os corpos dos quatro jovens foram retirados do riacho por volta das 23h de domimgo. Já Newton foi localizado pelo Corpo de Bombeiros na manhã de ontem. Ele vestia camiseta, calça jeans e óculos, num indicativo de que, possivelmente, tenha entrado na água às pressas, na tentativa de socorrer os filhos.
O riacho, de cerca de 20 metros de diâmetro e águas calmas, fica próximo à estrada municipal Murilo Villaça Maringoni, a cerca de 12 quilômetros do Aeroporto Moussa Tobias. Segundo parentes, a família já havia frequentado por diversas vezes o local, que fica ao lado de uma curta cachoeira e próximo da propriedade rural em que as vítimas viviam.
Resgate
Conforme elas já teriam relatado a parentes em visitas anteriores, a parte próxima à cachoeira era rasa, com apenas um metro de profundidade. Acredita-se, contudo, que as chuvas recorrentes tenham alterado a configuração do fundo do lago (leia mais abaixo), já que os corpos foram encontrados a uma profundidade de cerca de quatro metros.
| Quioshi Goto |
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| Os corpos das vítimas foram velados na Igreja Evangélica Pentecostal Deus é Luz, no Jaraguá |
A família teria ido até o riacho por volta das 15h e deveria retornar para casa para participar de um culto marcado para as 18h. Preocupada devido ao atraso, a mãe de três dos quatro jovens, Marinez dos Santos Avante, 40 anos, saiu em busca de notícias com a ajuda de mais dois parentes.
No local, eles encontraram o veículo da família, assim como chaves, calçados e celulares. Sem sinais da presença de pessoas no local, acionaram o Corpo de Bombeiros pouco antes das 22h. Uma hora depois, mergulhadores localizaram os primeiros corpos.
O IML de Bauru confirmou que as cinco vítimas morreram por afogamento. O velório foi realizado ao longo de todo o dia desta terça-feira (15) na Igreja Evangélica Pentecostal Deus é Luz, no Parque Jaraguá, frequentada por pela família.
Luick foi sepultado nesta terça-feira (16), às 9h, no Cemitério do Redentor. Já Newton, Natalia, Thallyson e Nataliely foram levados ao Cemitério Cristo Rei, onde foram enterrados às 9h30.
Placa de alerta
Após a tragédia, a Defesa Civil de Bauru informou que solicitará à Emdurb a instalação de uma placa alertando sobre o perigo e informando a ocorrência de mortes naquele trecho do rio, que fica em um terreno particular.
Chuvas aumentaram a profundidade do riacho
Por Marcele Tonelli
O local em que a família foi encontrada é uma espécie de piscina natural, com 10 metros de largura por 15 de comprimento, gerada por uma corredeira de aproximadamente um metro de altura. Três dos quatro corpos estavam próximos a essa corredeira, na altura de uma fossa submersa de 4 metros de profundidade.
“Era um local onde a água batia no joelho, mas depois das últimas chuvas, o local deve ter sofrido com tromba d’água, que levou a areia do fundo e deixou a queda profunda. A água estava turva e o fundo da tinha lama e muitas pedras”, descreve o cabo Paulo Henrique Pinto, dos bombeiros.
Esta não é a primeira tragédia nas águas de Bauru em 2016. Em 31 de janeiro, um adolescente de 13 anos nadava com amigos em uma área de um rio raso que ficou alagada com a cheia do Rio Batalha, na região do Parque Viaduto, quando morreu afogado.
Alerta: no salvamento corpo a corpo, risco de todos se afogarem é grande
Por Marcele Tonelli
Entre as principais hipóteses aventadas pelo Corpo de Bombeiros e pela família no local da tragédia, está a de que as vítimas, que não sabiam nadar, teriam tentado salvar umas às outras.
“Uma criança com 12 anos tem a força de dois homens quando está se afogando. Por isso, o salvamento corpo a corpo é algo muito técnico e que só deve ser feito abordando a vítima por trás e por alguém que saiba nadar muito bem”, comenta o coordenador da Defesa Civil de Bauru, Álvaro de Brito.
Essa, inclusive, é a última técnica que é usada durante salvamentos pelo próprio Corpo de Bombeiros. “O ideal é alcançar a vítima com uma corda, um pedaço de madeira, ou então dar a ela algo que flutue, como um pedaços de tronco ou uma boia. Por instinto, ao se afogar, a pessoa se debate desesperadamente e tenta de tudo para subir e respirar”, comenta o cabo Paulo Henrique Pinto, bombeiro especialista em técnicas de salvamento e que auxiliou na retirada do corpo de Newton Avante.
“É grande a probabilidade de afogamento das duas pessoas quando há esse tipo de tentativa de salvamento. Nesse, caso as nadadeiras que usamos, por exemplo, aumentam a propulsão na água e ajudam no salvamento”, acrescenta 1.º tenente Eduardo Souza Costa, bombeiro especialista em mergulho.
Luick não cursará o ITA...
Por Vitor Oshiro - Editor Local - JC
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| Reportagem do JC veiculada em 4 de janeiro deste ano |
No primeiro dia deste ano, Luick Claro me mandou uma mensagem no Facebook. Com toda a educação e não sem antes desejar felicitações a mim e a minha família pela chegada de 2016, perguntou quando seria publicada a reportagem sobre o fato de ele, aluno da rede pública, ter passado em primeiro lugar no Vestibulinho CTI da Unesp. Dias antes, havia entrevistado o adolescente por telefone e, além de contar sua paixão por números, Luick revelou seu sonho: cursar o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA).
Lembro que, quando desliguei o telefone, fiquei impressionado com a educação e esforço do jovem e pensei: “Este menino tem um futuro brilhante”. Não. Não teve. Os sonhos de Luick foram submersos neste fim de semana juntamente com outras quatro vidas.
E quantos outros futuros brilhantes serão afogados em rios, lagos e piscinas? Estamos na época do calorão e buscar lazer onde as temperaturas possam ser amenizadas é algo muito comum. Comum, contudo, extremamente perigoso.
“Não vai acontecer comigo”. É o pensamento que eu tenho e que, certamente, muitos de vocês têm. Estamos todos absurdamente errados. Acontece. A tragédia está em volta de todos nós.
E o alerta é onipresente. Em janeiro, o Caderno Bairros do JC, feito pela repórter Ana Paula Pessoto, foi inteiro sobre os cuidados com a água nesta época do ano. No último sábado (13), reportagem de Marcus Liborio também trouxe o tema de volta à tona com uma preocupação dos bombeiros sobre o aumento de ocorrências de afogamento neste início de ano em relação ao mesmo período de 2015. Tristes prenúncios de uma tragédia anunciada.
Que este dolorido episódio na história de Bauru sirva para conscientização. Clichê, né? O clichê aqui é mais do que válido. Na verdade, é obrigatório.
Luick não vai mais cursar o ITA. Não vai mais exercitar sua paixão por números. Não vai mais conciliar o ensino técnico em mecânica com o ensino médio, como tinha planejado. Os planos de Luick foram levados pela água, tão refrescante quanto traiçoeira. Que sua partida tão prematura, assim como a das outras quatro vítimas, consiga salvar outros tantos banhistas.
E respondendo à pergunta que você me fez pelo Facebook, Luick, a reportagem sobre seu feito foi publicada no dia 4 de janeiro. E é aquela fotografia que ilustrou a matéria que vou guardar na memória: você, sentado em uma cadeira de varanda improvisada na frente do computador (também sobre o que parecia ser um raque improvisado), ao lado de uma mesa de passar roupas e com alguns sacos de arroz logo atrás.
Aquele cenário humilde contrastando com seu sorriso e seu esforço. É essa cena que vou guardar na memória.
Você não cursará o ITA, Luick. Mas saiba que poderá salvar muita gente. Assim esperamos.
‘Ficou um vazio enorme dentro de mim’
Após perder os três filhos e o marido, Marinez dos Santos Avante, 40 anos, busca como encontrar forças para continuar viva e lutando
| Quioshi Goto |
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| Marinez, mãe e esposa de quatro das vítimas, só não foi com a família porque estava indisposta |
Até o início da tarde de domingo (14), Marinez dos Santos Avante, 40 anos, tinha uma família completa e estruturada. Horas depois, não sabia onde buscar forças para continuar viva e lutando pelo único filho, de 22 anos. Uma dor que, por mais que se tente, ninguém é capaz de mensurar.
Extremamente abalada e com um olhar de profundo lamento e desespero, a dona de casa era a tradução do impacto destruidor que uma tragédia desta magnitude pode provocar. “Ficou um buraco, um vazio enorme dentro de mim. Não há nada que se compare à dor que sinto agora”, contou à reportagem do Jornal da Cidade.
Ela afirma que já havia ido com a família no riacho por diversas vezes e que recusou o passeio, no domingo, porque estava se sentindo indisposta. “Íamos com frequência para lá. Existia um banco de areia que as crianças deitavam, era muito rasinho, ao lado de umas pedras lisas. Mas parece que este banco desapareceu com a chuva e ficou fundo lá. Acredito que eles escorregaram e não deu pé para ninguém. Ninguém sabia nadar”, lamenta.
Marinez conta que a família iria para o culto da igreja que frequentavam às 18h. Como ninguém voltava para casa, ela decidiu ir até o local, já imaginando que algo pudesse ter acontecido. “Fui com minha irmã e meu cunhado. Começamos a chamar pelos nomes dos cinco, só que ninguém respondeu. Então, ligamos para os bombeiros e eles acharam as crianças”, revela.
Nessa segunda-feira (15), durante o velório, a mulher – a despeito de sua voz trêmula e frágil aparência - dizia que tentaria encontrar forças para continuar viva e seguir lutando pelo primogênito. “As minhas crianças tinham sonhos, estavam apenas começando a vida. Eu mal sinto o meu corpo, não sei o que sobrou aqui dentro de mim. Mas ainda tenho o meu filho. Agora, ele é tudo o que eu tenho”.
| Facebook/Reprodução |
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| Newton Avante, 44 anos |
Vida dedicada a Deus
Considerado um pai dedicado à família, Newton Avante trabalhava como assistente escolar na Escola Estadual Professora Maria Eunice Borges de Miranda Reis, no Parque Jaraguá, e era presbítero na Igreja Evangélica Pentecostal Deus é Luz, do mesmo bairro.
Segundo a tia dele, Maria Rosa da Silva Oliveira, Newton era um homem trabalhador e preocupado com o futuro dos filhos, considerados “amorosos” e “bem educados”.
“Ele sempre acompanhou o desempenho das crianças na escola e os levou para dentro da igreja. A família era um exemplo, participava dos cultos e das atividades várias vezes na semana”, destaca.
Segundo o pastor Cícero de Fátimo Queiroz, Newton frequentava a igreja há cerca de 25 anos. “Era uma família maravilhosa, que foi vítima desta fatalidade. Não dá para imaginar o que esta mãe está sentindo. Agora, só Jesus para confortar o coração dela e do único filho que ficou vivo”, pondera.
Menino prodígio, o jovem Luick sonhava alto
“O Luick sonhava alto e tinha um grande futuro pela frente. Ele era o xodó da família, por tudo o que era e por tudo o que já tinha conquistado em tão pouco tempo de vida”, lembra o irmão, Renato dos Santos Claro, 27 anos.
| João Rosan |
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| Luick dos Santos Claro, 15 anos, sonhava cursar engenharia civil ou mecânica |
Aos 15 anos, Luick dos Santos Claro tinha muito a viver. Aluno da Escola Estadual Professor Ayrton Busch, ele havia sido recentemente aprovado em 1.º lugar no vestibulinho do Colégio Técnico Industrial (CTI) da Unesp de Bauru, além de ter recebido menção honrosa na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas - feitos que foram alvo de matéria publicada pelo JC no mês passado.
Terceiro filho de quatro irmãos, ele sonhava cursar engenharia civil ou mecânica no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), um dos mais concorridos do País. “Ele acreditava que era possível e vinha se esforçando para alcançar este objetivo. Estava muito feliz com tudo o que estava acontecendo na vida dele”, comenta Renato, revelando que o irmão tinha iniciado um relacionamento com Natalia Gabriela Avante há apenas 15 dias.
“Eles se conheceram na igreja (Deus é Luz). O Luick era um menino responsável, muito tranquilo. Parece que tudo o que está acontecendo é um pesadelo. A ficha ainda não caiu”, lamenta o irmão. A mãe, Solange Aparecida da Silva, não teve condições psicológicas para acompanhar o velório, nessa segunda (15).
Com histórico trágico, Thallyson queria ser PM
| Facebook/Reprodução |
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| Thallyson Avante, 17 anos |
Thallyson Avante, 17 anos, era um sobrevivente. Segundo a tia-avó Maria Rosa da Silva Oliveira, o menino foi criado por Newton e Marinez Avante após a mãe biológica e a irmã mais velha serem assassinadas a machadadas pelo pai dele, há cerca de 12 anos.
“A mãe era irmã do Newton. O marido dela chegou em casa num certo dia e ia matar todo mundo. Mas o Thallyson conseguiu se esconder embaixo da cama e sobreviveu”, relembra Maria Rosa, dizendo que o pai do jovem foi condenado pela Justiça e cumpre, até hoje, pena pelo duplo homicídio.
Talvez pela tragédia vivida quando tinha apenas 5 anos de idade, o garoto passou a nutrir uma forte admiração pela Polícia Militar. Com o objetivo de seguir carreira na corporação, ele havia prestado prova recentemente em São Paulo, conforme conta a mãe, Marinez Avante.
“Ele foi aprovado no exame teórico, mas, por ser menor de idade, não pôde fazer o teste físico. Ele ia completar 18 anos no mês que vem e ia fazer a prova. Era o sonho dele”, relata.
A pedido de familiares, homens da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros acompanharam o velório das cinco vítimas, na tarde dessa segunda (15), como forma de homenagem. “É o mínimo que podemos fazer para trazer algum conforto para a família”, destaca o tenente Nilson Tarcísio de Campos.
Sonhos interrompidos
| Fotos: Facebook/Reprodução |
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| À esquerda, Natalia Gabriela Avante, 17 anos; e ao lado Nataliely Mariana Avante, 13 anos |
Natália e Nataliely Avante, assim como Luick e Thallyson, pertenciam ao grupo de jovens da Igreja Evangélica Pentecostal Deus é Luz, que frequentavam desde pequenos. Segundo a mãe, Marinez Avante, as duas meninas participavam ativamente dos cultos como cantoras. “Elas tinham vozes lindas”, observa.
Assistente administrativa em uma fábrica de baterias da cidade, Natália havia concluído o ensino médio na Escola Estadual Professor Ayrton Busch e iniciaria, nessa quarta-feira (17), o curso de administração de empresas na Faculdades Anhanguera.
Já Nataliely, apaixonada por animais, sonhava ser médica veterinária, conforme conta a mãe. “Ela era minha bonequinha. Nesta semana, tosou os pelos do cachorrinho dela e falou que estava treinando para cuidar dos bichinhos quando crescesse”, lamenta.
Lamento
Por Redação do JC
A semana começa triste para Bauru e sua gente que trabalha e tem fé na vida. Uma família unida, bonita e solidamente constituída foi vítima da fatalidade que pode estar nos locais onde menos esperamos. Neste caso, num pedacinho da pacata natureza onde viviam. Num poço d’água que, por obra das chuvas, ficou mais fundo.
A redação e demais colegas do JC sentiram, como nossos milhares de leitores e internautas, as dores desta tragédia, que denota injustiça do destino por envolver gente inocente e de bem.
Desejamos toda força possível à mãe e filho que ficaram para reverenciar a memória de seus entes queridos. E que todos redobremos cuidados com os riscos que a vida nos impõe cotidianamente.
Veja mais fotos e um vídeo no final
| Fotos: Facebook/Reprodução |
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| Newton Mello Avante, a filha Natalia Gabriela e o namorado dela, Luick dos Santos Claro |
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| Nataliely Mariana dos Santos Avante e o irmão Thallyson Avante |
Assista:









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