Não sou muito afeito à festa do Rei Momo, mas um fato me chamou muita atenção durante esses dias: a repulsa de certa parte de alguns internautas pela atitude de um pai mineiro fantasiar seu filho como o macaco Abu (do desenho animado Alladin) para brincar durante um bloco carnavalesco. O detalhe é que toda a família estava fantasiada como personagens do mesmo desenho animado. O fato, por si só, não mereceria nem menção ou vaga lembrança, pois de racismo não houve nada além daquilo que existe na cabeça dos acusadores e, além do mais, quem joga diamantes aos porcos?
O que acontece é que as pessoas, dia após dia, estão mais fechadas em raciocínios e corolários cuspidos a elas como verdadeiros, fazendo-as mais anestesiadas e felizes por poderem pertencer ao seu grupo social sem enfrentamentos ideológicos. A aceitação dentro de um grupo sempre foi motivo de conforto ao ser humano. E é esse pressuposto que mostra a verdadeira tragédia do fato que relato acima: o ambiente virtual se transformou em um palco onde os atores atuam constantemente em papéis politicamente corretos para não serem banidos por seus pares.
O problema é que as palavras, atores e papéis estão relacionadas a atuações teatrais, repletas de máscaras, fantasias e garatujas que não representam o verdadeiro homem. E, o pior: o ator repete tantas vezes seu papel que passa a acreditar que ele é a própria personagem. Nesse contexto, absurdos aparecem e na tentativa de se destacar entre os seus pares, o homem politicamente correto cibernético passa a encontrar pelos em ovos e a gritar desesperadamente para se fazer notar. Nesse ponto temos uma alteração de conduta: do marasmo confortável os indivíduos com maior persuasão se destacam e tomam a frente de seu grupo.
E como “indivíduos com maior persuasão” não é sinônimo de “indivíduos mais inteligentes” e como a internet é um vasto oeste bravio sem leis (e não pode ter mesmo!), o espetacular ocorre: quem grita mais, acusa mais e denigre o outro é mais cultuado e mais seguido. Não há debates. Não há matizes de cores de pensamento. Há apenas a persuasão do mais forte e a bipolaridade branca/preta do pensar. E vejam então como esse mundo é jocoso, pois o ambiente que deveria ser o de discussão e abertura de pensamento se torna um ambiente fechado com regras preestabelecidas por quem grita mais. Parece uma ditadura, não? Algumas pessoas e grupos sabem a resposta dessa pergunta e também sabem como usufruir desses preceitos. Prestem atenção.
O autor é professor da Unesp - ghilardi@fc.unesp.br