Setores ultra-reacionários e militaristas, os quais denomino de neofascistas, estão obtendo crescente poder no nosso país. Isso não ocorre por acaso. Estamos vivendo em uma época de crise econômica e política. Para além de medidas extremamente amargas e recessivas impostas pelo governo, temos uma imprensa - majoritariamente oposicionista - ventilando rumores e acusações que desestabilizam o atual governo. Um clima de ódio generalizado está formado.
Diante dessa crise e do recrudescimento da luta palaciana pelo poder, a oposição calcula que o crescimento desses setores neofascistas será o fiel da balança para a perpetuação da crise econômica até 2018 e, posteriormente, para uma virtual vitória para a presidência da República.
É importante lembrarmos que antes de 2014, os setores dirigidos pelo PP do deputado Bolsonaro e do PSC do deputado Marco Feliciano, se diziam contra o governo do PT e contra o PSDB. Bolsonaro já chegou a afirmar que o primeiro político que ele fuzilaria seria o próprio FHC... O cenário agora é outro. Hoje, lamentavelmente, os tucanos estão de mãos dadas com esses setores e votam com eles em bloco. Mais: já articulam uma frente anti-Lula para 2018.
Esses neofascistas representam as linhas mais machistas no atual cenário político. O próprio Bolsonaro apoia sistematicamente o papel da mulher circunscrito tão somente à posição de boa esposa, obediente e submissa e afirma que a mesma merece receber menos do que os homens porque ganha “licença maternidade”.
Recusa, junto com os seus apoiadores, um debate sobre as desvantagens da mulher no mundo do trabalho, se opõe a leis que regulamentam o princípio constitucional de igualdade salarial entre homens e mulheres e, por fim, votou contra a Lei Maria da Penha e nunca escondeu o fato de acreditar que as mulheres recebem menos do que os homens também porque possuem menos capacidade intelectual.
Por outro lado, a corrente ultra-reacionária do PSC, ligada a alguns grupos evangélicos, defendem um papel da mulher em uma perspectiva bíblica considerada conservadora até mesmo pelos padrões mais conservadores do Vaticano. A mulher deve ser submissa ao homem, ponto final. São redatores de projetos de lei que obrigaria a implantação de suas doutrinas religiosas para todas as escolas (públicas e privadas), defendem a criminalização de todas as formas de aborto (inclusive aqueles praticados após a mulher sofrer violência sexual) e chegam ao absurdo de defender normas de vestimenta para as mulheres em locais públicos, incluindo praias e parques.
Esse é o mundo que os neofascistas defendem. O mundo no qual prevaleça suas “morais” e seus bons “costumes”. O país das “antigas”, onde a mulher cuidava dos filhos enquanto o marido frequentava cabarés e, ao chegar bêbado em casa, ainda podia (sem medo) lhe dar umas boas bordoadas. Para eles, o problema do Brasil é a desestruturação da família - leia-se - a emancipação das mulheres. A defesa da “família” é, na verdade o ataque às mulheres e seus direitos conquistados com grande sofrimento a partir de enormes lutas históricas.
A vitória dos neofascistas significará, sem nenhuma dúvida, um gigantesco retrocesso do nosso país na área dos Direitos Civis e dos Direitos das Mulheres. O Brasil se aproximará dos países fundamentalistas mais atrasados do Oriente Médio, como a Arábia Saudita e o Iêmen.
Como setor historicamente oprimido em nossa sociedade, ainda machista e retrógrada, as mulheres, em suma, agora possuem seus modestos avanços sociais ameaçados. Por outro lado, ao desmascararmos a perversa face desses setores, abrimos a oportunidade de as mulheres serem as principais personagens da derrota dos neofascistas no Brasil.
Todas as mulheres, feministas ou não, possuem diante de si a responsabilidade pelo futuro de nossa nação. Unidas possuem um poder de resistência indestrutível. Sabemos que o atual governo está longe de nosso ideal, mas a solução para nossos problemas não está e nunca estará na vitória dessa horda neofascista que hoje possui multidões a seu favor. Esta é a linha que nenhuma mulher pode deixar que se cruze. A linha de sua dignidade, de seus direitos e de sua liberdade.
O autor é professor de História/USP e diretor do Instituto de Ensino D’Incao