Tribuna do Leitor

O poeta ferroviário Amaral

Wanderley Brosco
| Tempo de leitura: 2 min

Tarde de verão; havia nuvens esparsas no céu correndo afugentadas pelo vento. Viajávamos de automóvel, margeando um longo traçado ferroviário, a fim de participarmos de uma cerimônia de casamento. Nossa conversa era leve e tranquila, relembrando bons tempos de infância em viagens ferroviárias, quando fomos apanhados de surpresa por um temporal.

“Chuva passageira”, ponderou o primo Ornaci, procurando manter clima de tranqüilidade ao volante.

Não tardou, porém, para que tivéssemos seu prognóstico comprovado: à medida em que avançávamos pela rodovia, a chuva caía de intensidade até se dissipar por completo.

À chegada ao destino, tempo ótimo. Adentramos ao local de festas revendo nossa gente em contagiante alegria. Havia em tudo um ar de encantamento: muita gente, muita luz, muitas flores; a noiva radiante, com seu traje impecável!

Ato civil é então seguido pelo religioso, através da brilhante palavra do pastor Joel.

No auge da festa, eis que surge a figura, tão querida, do ferroviário aposentado João Florêncio do Amaral, que nos seus 80 anos, em sua forma física e mental, está a improvisar versos, consignando aos mais jovens o poder de sentir-se ao lado bom e espiritual da vida.

Estava, todavia, nosso poeta em suas andanças pelo salão, quando se viu diante da antiga amada que não via há tempo. O grupo moveu-se para tomar lugar na mesa dos fundos.

Ele andou a seu lado, mas não quis sentar, recusou o convite gentil, sentia-se quase um estranho na roda; despediu-se. E quando estendeu a mão àquela que tanto amara e recebeu como antigamente, seu olhar claro e amigo, quase carinhoso, sentiu uma coisa boa dentro de si: uma certeza de que nem tudo se perde na confusão da vida. E que uma vaga, mas imperecível ternura é o prêmio dos que muito souberam amar.                                             

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