O programa eleitoral do PT na TV, terça-feira, investiu no discurso motivacional. “Você tem que ser otimista, tem que ter esperança”, dizia uma atriz no papel de vendedora de cachorro-quente. No fundo, uma música salvívica. “Quem já viu o Brasil superar momentos muito piores sabe olhar o presente com coragem”. O programa termina com a apoteose do samba. Mas, nas ruas, a música foi outra: o bater de colheres no fundo das panelas. Está certo que não ouvi nenhum som de protesto vindo da favela do fundão do Jardim Europa. Quem sabe o povo ainda acredita, como assegura o presidente do PT Rui Falcão, que “a dificuldade é passageira”.
As lições de otimismo continuam nas redes sociais, com o filho do Lula, Luís Cláudio, postando com bom humor - “O estacionamento está lotado de crise”. “As pessoas que fazem fila nos restaurantes esperam que a crise desocupe uma mesa”. Fico até com remorso por temer pelo meu emprego, quando 2 milhões e 700 mil trabalhadores já perderam os seus postos de trabalho. Extintos. Queria ter o otimismo da sra. Mônica Moura, conduzida pela PF (cadê o Japonês?) a mascar chicletes com sofreguidão, de nariz empinado como se tivesse certeza da impunidade. Enquanto vivemos ao sabor de um processo de deterioração da economia, com um PIB negativo de 4% e as contas públicas à deriva, causa inveja a despreocupação do marketeiro João Santana, que sequer tem ideia de quem depositou US$7,5 milhões na sua conta na Suíça. Ele é um homem de criação, não trabalha com questão financeira e bancária – justifica seu advogado.
Tudo no melhor dos mundos democráticos. Essas coisas nos remetem ao velho dr. Pangloss (Cândido ou Otimismo, 1758), personagem de Voltaire que insistia em negar o real, na impossibilidade de negar fatos comprovados. Sempre existe uma intepretação a mais otimista possível. O autor ironizava o filósofo e matemático alemão Leibiniz – “tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis”. Naquela época a Europa era palco da verdadeira primeira guerra mundial (Guerra dos Sete Anos). De um lado, França, Império Russo e Espanha. Do outro, Inglaterra, Portugal e Prússia, além de outros menos ranqueados. Lisboa fora destruída por um terremoto, seguido de maremoto, com milhares de mortos e desabrigados. Pangloss (Leibiniz) justificava dizendo que a catástrofe é indispensável, pois provem de Deus. Tudo está necessariamente destinado ao melhor fim. As reflexões a que Voltaire nos leva sobre otimismo e pessimismo influenciaram Orwell (1984), Huxley (Admirável Mundo Novo); e, entre nós, Memórias Póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba (1881), de Machado de Assis. Mazzaropi também embarcou nessas águas com Candinho, o caipira que acreditava em tudo e fazia as coisas darem certo. Até a novela do Walcyr Carrasco, Êta mundo bom (circunflexo por conta da Globo), bebe dessa fonte. No cinema de antigamente, Cantinflas (Se eu fosse deputado) ironizava a “hipocrisia dos poderosos” que se aproveitam da memória de peixe do povo.
Otimistas incorrigíveis e pessimistas sistemáticos são de igual modo perniciosos. Concordo. Uns, superdimensionam, outros subestimam. Outro dia, lá na academia, um empresário se espantava com o “otimismo” do Jad Zogheib que comprou o Walmart em Marília, vai investir mais R$15 milhões e abrir outro hipermercado. Enquanto muitos fecham, o bauruense abre. Não devemos confundir otimismo, no sentido panglossiano com “resiliência” – a construção de novos caminhos, seguir em frente. Atualmente a resiliência é utilizada no mundo dos negócios para caracterizar pessoas que têm capacidade de retornar ao seu equilíbrio emocional após sofrer grandes pressões ou estresse, ou seja, são dotados de habilidades que lhes permitam lidar com problemas sob pressão, mantendo o equilíbrio emocional. Será que o Wal-Mart, a maior empresa do mundo não contrata gente com essas qualidades? Com certeza, sim. Fecha em Marília e abre duas no Nordeste onde o mercado está mais favorável para alimentos, e a rentabilidade é maior para a sua estrutura paquidérmica.
O termo resiliência vem da Física, para designar a capacidade de alguns materiais de absorver impactos e retornar a forma original. A mola de carro, por exemplo. Quando se trata de comportamento humano, a palavra pode significar a habilidade de lidar e superar adversidades transformando experiências negativas em aprendizado e oportunidade de mudança. No popular, “dar a volta por cima”.
O autor é jornalista e articulista do JC