| João Rosan |
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| Gabriel Galli e Matheus Braga mudaram vida da noite para o dia |
Se você encontrar dois garotos com sacos plásticos enfiados na cabeça, em frente a uma loja na quadra 13 da rua Antonio Alves, em Bauru, não estranhe. É propaganda. Sim, é uma das formas de atrair a atenção do consumidor utilizada por dois ‘meninos industriais’ de 18 anos. Eles são donos de uma fábrica de sacos plásticos de lixo e tem ponto de revenda na região central.
No meio da efervescência da crise econômica (política e moral) enfrentada pelo País, Gabriel Ferreira Galli e Matheus Sales Braga viraram, recentemente, amigos e sócios. Deixaram os games de lado e, sob a supervisão dos pais, decidiram aceitar o convite inusitado e assumir a empresa, uma pequena unidade fabril instalada em Borebi e com loja em Bauru.
Cheios de incertezas, na proporção natural à idade, com muitas dúvidas a respeito das dificuldades para encarar o negócio e mesmo com o acréscimo de deterem pouca informação sobre o panorama econômico e emprearial, os garotos partiram para o desafio. “O Matheus me falou da loja que estava parada e o pai dele disse que precisava de alguém para ajudar. A gente conversou, conversou com eles (os pais) e mandamos bala”, diz o mais tagarela da dupla, Gabriel Ferreira Galli.
Para Matheus, tudo é novo. “Tudo é novidade. Estamos aprendendo tudo, do zero, desde como fazer a abordagem das pessoas para tentar ganhar clientes até a saber sobre custos da fábrica, de margem para comercializar, essas coisas”, comenta.
A pouca idade está ajudando em pelo menos um quesito: eles não têm medo. “Outro dia chegamos à loja e pensamos em fazer furos nos sacos de lixo para tentar chamar a atenção de clientes na rua. Deu certo para alguns, outros riram, outros acharam estranho. Mas todo mundo parou pra ver. Então, acho que deu certo!”, comenta, em sorriso franco, Gabriel.
Agora os garotos estão preocupados em aprender os processos de fabricação. “Esta semana fomos à fábrica em Borebi para saber mais sobre o produto (matéria-prima) e como é feita a transformação lá. O que nós percebemos é que o preço que vendemos é muito bom em relação ao que se cobra por aí. E estamos dentro do custo entre o que gastamos para produzir e vender”, aposta Matheus Braga.
Bom, então o negócio está indo bem no volume de vendas e com o preço final dentro da margem de lucro? Para a pergunta vem a resposta franca, comum aos meninos: “Isso. Isso! Tá com uma boa margem. E isso agora vai ajudar a tentar vender no atacado. Começamos a fazer visitas por aí para não ficar na venda só aqui na loja (varejo)”, adianta Gabriel.
Junto às primeiras visitas vieram as reações. “Fomos falar com uma senhora e chega lá na recepção da loja grande dela dois garotos. Ela estranhou. Nós pedimos para falar com ela e ela disse que estava sem tempo e que era para a gente deixar os currículos que depois ela olhava. Aí eu disse: dona, não viemos pedir emprego. Viemos vender para a senhora. Somos empresários!”, emendou Gabriel.
Para Matheus, a reação é normal. “Eu entendo. Faz parte e até é divertido. Somos jovens. Tem um monte de espinha na cara. Normal acharem que fomos pedir emprego. Nesta crise brava, ainda bem que a gente não está indo pedir emprego, mas tentando vender!”
Dicas ao jovem empreendedor
Em geral a liberdade é e sempre foi a grande busca da juventude. As gerações atuais valorizam ainda mais essa questão e esse é um dos principais motores do empreendedorismo entre os jovens.
Em sua opinião, a capacidade e, ao mesmo tempo, a possibilidade de inovar são outros fatores que motivam a empreender. “Os jovens atuais também possuem uma noção menor de hierarquia e, em muitos casos, nem a possuem. Portanto, ser empregado não é uma questão que agrada muito o jovem e isso os motiva a empreender”, comenta.
Para o especialista, é exatamente o negócio precoce que faz com que os jovens tenham uma visão ainda “limpa”, sem muitos paradigmas, o que acelera a sua capacidade de inovação.
“Em geral, os jovens se motivam por desafios constantes e crescentes e essa é a dinâmica de qualquer negócio. Sabemos que são os desafios que nos motivam e quanto maior o desafio, maior a energia e isso é certo com os jovens. Enquanto jovens também pensamos em resolver grandes problemas e melhorar a vida das pessoas e uma oportunidade de negócio tem muito a ver com isso”, analisa.
Outras duas características do empreendedor jovem são a flexibilidade e dinamismo. “E são características que também colocam o jovem em consonância com o mundo dinâmico e com essa evolução acelerada. Se adaptar à evolução é ponto crucial para que o negócio se adapte à realidade atual e continue a crescer”, pondera o economista.
O domínio de tecnologias, a facilidade em se adaptar a cenários e a compilar informações, na visão do consultor, favorecem a criação de negócios relacionados a essas áreas. Mas, costumam começar negócios a partir do que gostam de fazer. “A trajetória empreendedora ou qualquer outro desafio se torna muito mais fácil quando gostamos do que fazemos. Todas as outras características se afloram de forma mais fácil quando se faz o que gosta”, indica Fabri.
Mas, como em todo aprendizado, o consultor adverte para problemas a serem levados em conta.
Primeiro, a grande utilização dos meios eletrônicos pode fazer com que os jovens tenham mais dificuldade em se relacionar e negociar, olho no olho, tarefa imprescindível em muitos perfis de negócios.
Segundo, começar cedo também significa começar com pouca experiência e em muito casos, imaturidade. “A liberdade real no mundo dos negócios é menor do que se imagina: sócios, fisco, previdência, colaboradores, fornecedores, entre outros. Temos que a todo instante estar prestando conta para alguém”, comenta Adriano.
Terceiro, flexibilidade e dinamismo podem se traduzir em falta de paciência para esperar que os projetos maturem. “Sabemos que muitos negócios demoram anos para começarem a retornar ou se consolidar e falar em anos aos jovens hoje em dia é falar da eternidade”, sugere.
Quarto, o tamanho do desafio pode ser o mesmo da decepção, principalmente quando o retorno não vem no tempo do jovem. “Fazer o que gosta também pode representar para o jovem não estar disposto a fazer nada do que não goste. E o mundo real, o mundo dos adultos, não é bem assim. Muitas vezes, temos que estar dispostos a fazer o que não gostamos para conquistar o que desejamos, ou ainda, aprender a gostar do que faz. Essa é uma habilidade pouco presente na juventude atual”, orienta.
Quinto, o jovem precisa estar ciente que todo sucesso empresarial não depende, exclusivamente, de ter ótimo produto ou serviço. “Precisa somar ao negócio um atendimento de excelência e, mais do que isso, muita competência em gestão, onde poderíamos destacar: planejamentos e controles consistentes, sistemas confiáveis, dentro das principais áreas: finanças, custos, marketing, produção/operação, vendas e gestão de pessoas.
Por fim, Adriano Fabri lembra da receita básica do empreendedor. Alcançar o sucesso dependerá do equilíbrio desse tripé: competência técnica (produto), competência em gestão e perfil empreendedor. Esse último determinará todo o restante”.
Vizinhos e sócios
Gabriel e Matheus se conhecem há apenas três meses. Passaram a morar na mesma rua. “Como passamos a ser amigos, a troca de informações e a oportunidade apareceu junto. A gente fica junto o tempo todo e como moramos quase vizinhos a gente vem junto até para a loja”, explica Matheus.
Matheus está cursando o 2º ano de engenharia de produção e Gabriel concluiu o colegial e quer cursar administração na graduação. Com os 18 anos completados recentemente, ambos repetiram a ansiedade pela obtenção do “prêmio da idade”: “Eu fui no mesmo dia entrar com o pedido de minha carteira de motorista, claro”, contam.
Gabriel namora, Matheus está solteiro. Ambos têm como experiência fora de casa o aprendizado no comércio com os pais, aos 16 anos. “Meu tio me orientou a começar a aprender a trabalhar cedo. Então comecei a ir na loja de venda de carros para aprender”, diz. O mesmo aconteceu com Matheus, mas já no comércio com sacos plásticos de lixo.
Os garotos afirmam que não costumam dormir tarde, pararam de jogar videogame e, por coincidência, também não curtem muita balada noturna. “O Matheus, na verdade, até gosta de sair, mas volta cedo para a casa. Ele também sempre foi ótimo com o controle de quanto gastar, desde cedo”, conta a mãe Ana Paula Braga.
Sobre a experiência de ver os amigos sócios em uma empresa, ela emenda: “Eu fico, claro, com preocupação. Eles são meninos ainda. Já tive mais. Agora está menos, porque eles estão levando a sério. Então eu fico com preocupação, mas também com muito orgulho”, confessa.
