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A verdade sobre as enchentes

Luis Cesar Demarchi
| Tempo de leitura: 2 min

É louvável a preocupação do Ministério Público e Câmaras Municipais em investigar possíveis responsáveis pelas últimas enchentes ocorridas principalmente em Lençóis Paulista e Pederneiras. Nota-se que há uma tendência em responsabilizar o rompimento de represas como causadores dos desastres.

Se considerarmos que na cidade de Lençóis Paulista a inundação perdurou por mais de 12 horas e que nessas 12 horas as águas não permaneceram paradas sobre a cidade, mas escorrendo de forma continuada em  direção à foz do Rio Lençóis, o volume de uma ou mais represas acrescentado ao volume de águas que passou pela cidade seria equivalente a um pingo d’água jogado em uma piscina, portanto, totalmente infundada a suspeita de que rompimentos de represas foram os responsáveis pelas inundações.


Por outro lado, se verificarmos quanto de área  a urbanização deixou nos vales para o escorrimento natural das águas, descobriremos o principal responsável pelos desastres, ou seja, a cidade invadiu as áreas que deveriam ser deixadas para o livre escoamento das águas provenientes de grandes chuvas. Ainda, para complicar, construiu pontes com vãos livres sem a menor preocupação com o correto dimensionamento, obstruindo a livre passagem das águas, que procuram outros caminhos, as ruas da cidade.

         

Mas ainda existe outro segmento que possui parte da responsabilidade pelas enchentes: o setor canavieiro, que nos últimos anos, por recomendação de um professor da Esalq, adotou sistema de plantio da cana de açúcar que consiste na eliminação de terraços aliado ao plantio com as linhas direcionando as águas para fora da lavoura, direto para os vales. Essas águas dispensadas do interior das lavouras que utilizaram o referido método aumentaram sobremaneira o volume do escorrimento e ajudaram, em muito, o agravamento das enchentes.


O pior é que os canavieiros foram alertados e por muitas vezes autuados pela Secretaria da Agricultura por danos causados pelo uso do método desastroso, mas de forma irresponsável continuam a utilizá-lo, evidenciando que para eles mais vale uma pequena economia na condução da lavoura do que evitar desastres como os ocorridos não só na zona urbana, mas por toda zona rural, principalmente no aspecto ambiental.


O interessante é que os canavieiros foram os primeiros a ceder caminhões-pipas para a limpeza das cidades se passando, para os ignorantes, como bonzinhos no episódio.


Está aí, MP e Câmaras, no meu entender, a verdade sobre as enchentes. Cabe agora investigar ouvindo as instituições, de fato, conhecedoras do assunto.


O autor é engenheiro agrônomo

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