Cada data carrega a sua mensagem. Natal, por exemplo. Como me comove o espírito natalino! Que corrente solidária! Todos nos lembramos do menino Jesus. Em cada esquina, distribuímos “um feliz natal e um próspero ano novo pra você também”. Generosos, não nos esquecemos dos pobres, doamos presentes e a sensibilidade lambe tanto a nossa pele que choramos por qualquer coisa. Ah, se tivéssemos um natal por semana, estaríamos todos salvos e esse mundão de tantos pecados, redimido.
É bem isso. Cada data carrega a sua simbologia, o seu espírito. O carnaval, por exemplo. Que momento esfuziante, mas também, digamos, assustador! Mulheres e homens esculturais, lindos e não lindos, pouquíssima roupa, as curvas da sensualidade gritando, os volumes expostos, liberados a libido e a bebida, a cheirada também, quadris serpenteando, danças de acasalamento, marchinhas apimentadas avisando que a festa do Dionísio começou. Hora de muita loucura, beijos na boca, o resto é consequência. Se tivéssemos um carnaval por mês, Deus meu, não consigo nem imaginar...
Não quero ser saudosista, aprendi que a vida anda pra frente. Não quero ser moralista, se o fosse, ainda estaria cobrando virgindade no casamento. Credo! Mas como ignorar os carnavais do passado? As marchinhas, pura poesia, falavam de amor, Pierrô e Colombina, e não de tesão e pegação. Os lança-perfumes arrepiavam braços e costas da moçoila bonita, jamais usados na fissura do próprio nariz. Distribuíam-se às senhoritas leques publicitários de papelão, camisinhas nem pensar, cairia o mundo.
Não havia desfile de escolas de samba, apenas o corso, um cordão de foliões de rua, guerra inocente de confetes e serpentinas. Nos salões, as mesas aglutinavam as famílias. As moças delas saiam e para elas retornavam, sempre sob vigilante fiscalização paterna. Beijo na boca, sendo discreto, podia sim, desde que fosse o casal “deveras comprometido”. Hoje, beija-se primeiro, pergunta-se o nome depois. Isso, quando se pergunta. Abro o jornal e fico sabendo que a publicitária baiana Lindalva da Silva achou o carnaval paulistano muito “coxinha” comparado à farra de Salvador, “aqui não tem praia, falta tesão, estou há vinte minutos em maré baixa, no zero a zero. Carnaval pra mim tem que ser assim: ninguém é de ninguém”.
Viro a página e me espanto, muitas mulheres apanharam por recusar o beijo na boca. ”Ficam ali, na frente da gente, praticamente peladas, rebolando, atiçando, enfeitiçando e, depois, na hora do pega, fecham a boca e tiram o time de campo, a gente não é palhaço...” – reclamam os agressores. Até os entendo, sei (quem não sabe?) que a carne é fraca, mas nada justifica a criminosa agressão. Beijo é coisa de dois querendo, um só não dá liga.
Ligados, contudo, os mais diferentes beijos e casais. Mulher grudada em mulher, marmanjo agarrado em marmanjo, e também, claro, o beijo conservador, o tradicional “papai-mamãe”. Mudei a página, outro susto. Em Porto Alegre, vêm ocorrendo edições do “Cadê Tereza”, baladas em que a nova moda é ficar pelado. “Não é sacanagem não, é mensagem, protesto libertador do corpo hoje tão explorado pela comercialização sexual” - assim explicam os ideólogos do movimento. Lembrei-me , então, do famoso trenzinho dos bailes funks, um atrás do outro, todo mundo engatadinho. Coisa de “papo-cabeça” também?
Fechei o jornal. Não quero ser, repito, conservador; menos ainda moralista. Sou apenas um pobre mortal que conheceu muitos carnavais, dois mundos e nada aprendeu.
O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras. curso_romag@uol.com.br