| Reprodução/Facebook |
![]() |
| Lucas Matheus e Dayane Mozer namoraram 7 meses e estavam separados desde quinta-feira |
| Douglas Reis |
![]() |
| Corpo de Lucas estava caído atrás do caminhão-baú que ele usava para trabalhar |
Minutos antes de ser morta pelo ex-namorado em estrada de terra em Piratininga, a estudante de psicologia Dayane Mozer, 23 anos, relatou a um de seus melhores amigos que estava com “aperto no peito” por conta do fim do relacionamento, ocorrido na última quinta.
Isso porque o autônomo Lucas Matheus Franco Lima, 26 anos, que se matou logo após cometer o feminicídio, dizia não ter mais condições de seguir morando em Bauru após o fim do namoro e já havia até anunciado que se mudaria para São Paulo nesta semana.
Por essa razão, o rapaz combinou de pegá-la na saída da faculdade, na última segunda-feira (29) à noite, para buscar algumas roupas na casa de Dayane. Depois disso, sabe-se que o corpo da jovem, assassinada com um tiro na testa, foi encontrado por volta das 23h, em estrada de terra próximo à vicinal Irmãos Saad Farha (acesso à SP-204, a Bauru-Marília).
Um sitiante que passava pelo local logo após o crime se deparou com o cadáver e acionou a polícia. Ao lado do corpo da jovem, foram encontrados seus documentos, bolsa, carteira e celular. Em princípio, não havia suspeita da autoria do homicídio.
Na manhã dessa terça-feira (1), por volta das 8h, o corpo de Lucas foi localizado atrás do caminhão-baú que ele utilizava para trabalhar, estacionado em outra via de terra a cerca de um quilômetro de onde Dayane foi morta. Ao lado dele, estava arma utilizada no crime, um revólver calibre 38 com a numeração raspada.
| Fotos: Douglas Reis |
![]() |
| Arma usada no crime foi localizada e apreendida |
![]() |
| Ana Beatriz ouviu quando Lucas atirou contra a própria cabeça |
Segundo o delegado titular de Piratininga, Francisco Bromati, o jovem se matou com um tiro na cabeça, menos de 10 minutos após ter assassinado a ex-namorada.
“A sequência dos crimes foi muito rápida. Ela foi morta às 23h, conforme testemunhas que escutaram o tiro. Às 23h09, moradores de uma chácara próxima ouviram o disparo que matou Lucas”, disse o delegado.
Ana Beatriz Gonzales Braz, 18 anos, estava no quarto quando ouviu o barulho do tiro que tirou a vida de Lucas. “Os cachorros começaram a latir e meu pai falou para a gente não abrir a porta e ficar quieto dentro de casa”, lembra.
Bromati teoriza que, em princípio, o rapaz não tinha a intenção de se matar. “Depois que atirou em Dayane, ele substituiu o projétil deflagrado por um intacto e tentou voltar para Bauru, mas tudo indica que se perdeu e foi parar em rua sem saída, momento em que pode ter tido um choque de consciência e se matou. O revólver estava com cinco cartuchos intactos, ou seja, faltando apenas o utilizado no suicídio”, explica.
O caso foi registrado como feminicídio e suicídio. Ainda segundo o delegado, o projétil retirado da jovem durante a necropsia será encaminhado para confronto balístico, em São Paulo.
O enterro de Dayane ocorreu nessa terça, às 15h30, no Cemitério do Redentor. Já o corpo de Lucas está sendo velado no Centro Velório São Vicente, que fica na praça Dom Pedro II, 4-39, Centro de Bauru. Seu sepultamento se dará hoje, às 10h, no Cemitério do Ipê.
| Douglas Reis |
![]() |
| Delegado Francisco Bromati afirma que jovem se matou menos de dez minutos após atirar na ex-namorada |
Histórico
De acordo com o delegado Bromati, Lucas tinha duas ocorrências policiais registradas em seu nome por conflito com a companheira anterior a Dayane. De acordo com relatos da família do rapaz à polícia, ele e Dayane viviam relacionamento conturbado em razão de ciúme excessivo de ambas as partes. Os dois namoraram sete meses e chegaram a morar juntos por um tempo.
Pouco antes do crime, amigo disse para Dayane não sair com Lucas
Muito abalado durante o velório, um dos amigos mais próximos de Dayane, Thiago Carvalho da Silva, 20 anos, contou que tentou alertá-la para não sair com Lucas na noite do crime. “Ela me mandou áudio no celular falando que ele ficou de pegá-la na faculdade porque precisava buscar umas roupas na casa dela. Disse que estava com o coração apertado porque Lucas ia embora para São Paulo e que sentiria falta dele, mas não adiantava reatar o namoro, pois ele era muito ciumento e os dois brigavam bastante por isso. Foi quando eu falei para ela não ir com ele e voltar para a casa sozinha. Depois, ela não me respondeu mais”, contou.
A atitude de Lucas surpreendeu a todos, disse Thiago. “Ninguém imaginava uma coisa dessas. Eu que o apresentei para Dayane em uma festa. Lucas era tranquilo, nunca levantou a mão para ela e sempre dizia que a amava muito. Ele não se conformava com o fim do relacionamento. No domingo, me mandou mensagem dizendo que gostava muito dela”.
| Douglas Reis |
![]() |
| Amigo próximo de Dayane, Thiago Silva diz que tentou alertá-la |
Dayane, que morava com a mãe no Mary Dota, cursava o terceiro ano de psicologia em uma universidade de Bauru. “Ela tinha o sonho de concluir a faculdade e começar a trabalhar”, disse Thiago. Já Lucas, que vivia com uma avó no Tangarás, havia ganhado o caminhão-baú do pai, que mora em São Paulo, há um mês para trabalhar com fretes. O rapaz, que perdeu a mãe há alguns anos, deixa ainda um irmão que mora em Bauru. Dayane deixa os pais e um irmão de 18 anos.
No Bela Vista
Há pouco mais de um ano, Bauru era palco de tragédia semelhante. No dia 12 de fevereiro de 2015, Daniela Pavanelo Segantin, 25 anos, foi morta pelo ex-namorado, o comerciante Evandro José Silveira, 38 anos, no escritório de advocacia em que ela trabalhava, no Jardim Bela Vista.
Após o crime, Evandro efetuou um disparo contra a própria cabeça e também morreu. Minutos antes de entrar no estabelecimento, localizado na quadra 3 da rua Miguel Buso, o comerciante anunciou a tragédia em perturbadora mensagem publicada no Facebook.
Segundo o JC apurou, a jovem havia terminado recentemente o relacionamento que manteve por cerca de três anos com Evandro e ele não aceitava a separação.
Sociedade doente
A Editoria
O mês que abriga o Dia da Mulher não poderia ter começado de forma mais lamentável. Uma jovem foi morta pelo ex-namorado. O JC não tem a pretensão de ser juiz de nada nem de ninguém, mas não se furta ao dever de relacionar a tragédia na família de Dayane Mozer ao tratamento brutalmente desigual que tantas outras mulheres sofrem a partir do preconceito e da discriminação.
Considerar a mulher uma propriedade é uma aberração que vem desde o Brasil colonial. Mas ainda é uma realidade na cabeça doentia de muitos homens, dois séculos depois. Como aquele que há um mês e meio chacinou três mulheres, aqui mesmo em Bauru. Na matéria do JC de 19 de janeiro de 2016, um dos trechos informava: “...o autor da barbárie foi preso após ir ao trabalho como se nada tivesse acontecido”.
Importante também relacionar à tragédia a fragilidade emocional com que nossos jovens estão se formando, fruto de famílias e sociedade desestruturadas.





