Costumeiramente ouço o estrondo da pedra, ou melhor, da pedrada atirada contra um conhecido alvo: os políticos. Críticas onipresentes atestam o perímetro da insatisfação popular em torno de uma classe, em cuja maioria, lamentavelmente, depositadas estão as ideias de vantagens pessoais, desvio de dinheiro público, enriquecimento ilícito e afins. Passado e presente já protagonizaram homens engravatados transformarem a regra em exceção. Já testemunharam largas facilidades aos amigos, e estreitos rigores da lei aos inimigos. Cansado de mais do mesmo, de tanta não notícia, em rasas conversas na banca de revista, presta esta singela reflexão uma análise verdadeiramente justa sobre seus nobres expedientes. Municipal,estadual e federal, haja deserto para tanta Terra prometida. Haja pressa para tanta promessa, ainda mais, impressa.
Por isso, seria bovino comportamento e pecuária ingratidão olvidar a dedicação de certos políticos na apresentação de projetos de leis funcionais aos problemas sociais. Destarte, o nosso notório reconhecimento na divulgação por quem trabalha com idêntica verdade ao choro das carpideiras profissionais. Por uma classe de profissionais incoerentemente adesivados por legislar em causa própria. Meu Deus! Envolvidos incansavelmente em seus laboriosos projetos para melhoramento das classes desfavorecidas, grande parte deles incompreendidos são pela mídia. Dessa forma, o fraternal apelo em prol deles. Como poderia a sociedade injustamente emoldurá-los num quadro de plena ociosidade!? Não enxerga que grande parte deles estão sem tempo, inclusive, para coçar, pois desmotivados estão para cortar a unha!!?
Pela injustiça, todo preço teriam alguns políticos? Exagero. Condizente com seus rendimentos, como presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha resolveu adquirir, com velocidade, certos cavalos motorizados. Porshe Cayenne S, avaliado em R$429 mil reais, um Ford Edge V6 e um Ford Fusion. Correr da Justiça ? Os bólidos foram registrados, sem pecar, em uma de suas empresas, cujo nome é Jesus. Como cristão, Cunha reconhece. Carros como esses, só com Jesus na direção.
E por falar em sagrado, o deputado federal Gilberto Nascimento, PSC-PE, propôs que doadores de sangue tipo O sejam privilegiados com dois dias de folga no trabalho. Os demais, apenas um dia já seria o bastante. Político sangue bom é pura doação! Paralelamente a isso, preocupação maior, notavelmente, foi dos vereadores de Quixeramobim, CE. Preocupados com o atropelamento de animais, propuseram que os rabos dos bovinos, ovinos e caprinos fossem devidamente pintados, semelhante ao recurso do trânsito, de amarelo fosforescente. Pudera! Pintada no rabo dos outros é precaução!
Intenciona esse raciocínio evitar injustas análises, indesejáveis comparações, pois envolvidos estão na apresentação de propostas para melhorias sociais. Divulga-se que o deputado Gilmar Fernandes Quintanilha, DEM-RJ, apresentou à Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados, projeto, cujo teor proíbe a comercialização e utilização de sutiã com bojo no Brasil. Enganoso, segundo Gilmar, o recurso frustra a imaginação masculina,em caloroso momento de excitação, por imaginar algo proeminente, rígido, quando, na realidade, inexiste. Grave gravidade!
Diante de tanto político com ideal no ideal da política, oportuno reconhecer em alguns benéfica intenção por conquista de direitos sociais. Por isso, incondicional convite à transformação com ação. Filiarem-se no partido da Ética. Manterem acordos com Sensatez. Estabelecerem a Transparência como causa, evitando episódica consequência. Serem escravos da Verdade, jamais sua dona. Reconhecerem que homem público não é substantivo masculino de mulher pública. Observar, portanto, que a mesma língua capaz de contar verdades com mentiras, fazer protagonista virar antagonista, fazer o indicativo transformar-se em subjuntivo e transformar o fato em hipótese, faz do mundo um lugar de horizontes em forma de fronteiras. Soltos ou presos, todos estamos submetidos à fala e também ao juízo da nossa consciência. Juízo que faz muito político língua presa estar temporariamente solto e muito língua solta estar injustamente preso. A língua, feito chicote, ricocheteia.
O autor é professor de Língua Portuguesa de colégios e universidade e colaborador cultural deste jornal; alexandrebenegas@gmail.com