Todo mundo viu: Lula disse ser jararaca. Viva como nunca. Já foi sapo barbudo. Assim era chamado por seus críticos mais mordazes. Lula, aquela do fundo do mar, não tem casca dura. Lula, o político, precisa ter. As águas, mais cá do que lá, andam turbulentas.
O reino da política é mesmo animal. Tucanos, por exemplo. Quem pega no pé deles sempre provoca: vivem em cima do muro. Eles não aceitam e fazem bico. Já o tucano-ave, de verdade, ama a liberdade. Tanto que, em cativeiro, fica deprê. Quase morre no ninho.
Seria moleza se a fauna toda se resumisse a lulas e tucanos de olho no polvo, digo povo, brasileiro. Só dois tipos para adestrar, ensinar, pacificar. Porém, a fauna é diversa. E a bicharada, imprevisível. Alguns bichos políticos pagam mico. Outros são lisos, tipo bagres ensaboados. Esse parque tem lá seus dinossauros - e velhas raposas. Até filhotes (da ditadura). E lesmas (sem atitude).
Outros tantos ajudam a batizar operações animais, digo, federais. Uma pesquisa de segundos já confirma: Águia, Garça, Lince. Albatroz, Tubarão. Cascavel, Anaconda, Sucuri. Olha a cobra de novo aí. Melhor seria chamar o diretor do Zoo de Bauru, Luiz Pires, para dar jeito nessa turma toda.
Segundo está explicadinho no site Brasil Escola, com base em preceitos de Aristóteles: “O animal político é o homem livre que goza de direitos naturais por sua competência em comandar”. Competência em comandar. Competência em comandar. A frase parece martelar na cabeça feito um insistente pica-pau.
É isso: precisamos encontrar animais políticos que tenham competência em comandar. Mas tem um detalhe: para o filósofo grego, “toda comunidade visa um bem”. Espero eu que seja “bem” no sentido de “bem coletivo”, não de “bem material”. Talvez nesse quesito tenha tido início toda essa animalesca confusão.
Quando o primeiro da espécie, em tempos remotos, confundiu “bem” com “bens”, bem que ferrou tudo. Ajudou a proliferar ratos e gatunos. Desde então, nem pomba teve paz. E a coisa ficou mais feia do que cão chupando manga. Como sou meio burro, uma dúvida final: no pântano da política, o bicho honesto continua em extinção? Dá medo da resposta. Se correr, o bicho pega; se ficar, pior: o bicho é homem.
O autor é editor executivo do JC