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O rabo da jararaca

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Heidegger inspirou-se na alétheia (busca da verdade) dos filósofos pré-socráticos para desenvolver o seu ensaio “O princípio da identidade”, 1957. Dizia ele que é a verdade do ser que possibilita clarificar (des-velar). A alétheia surgiu na Grécia Antiga como contraponto aos sofistas. Protágoras e Górgias cobravam pelas aulas de retórica e ensinavam aos candidatos a orador, como se utilizar de falsas premissas, para persuadir a plateia a comprar ilusões. Heidegger concluía, 2.400 anos depois, sobre os perigos da aparência, engano, ilusão e erro se tornarem “errância histórica”.

    

Ninguém é dono da verdade, mas devemos ser amigos dela. Para chegar ao “des-velar” é preciso investigar. Tratando-se de Justiça, ninguém é imune ao dever de responder. Os delegados da PF que presidem inquéritos têm a liberdade de escolher o nome da operação. E têm sido felizes nessas metáforas. Em 2008, a diligência que culminou com a prisão de banqueiros chamou-se Satyagraha. Também “a busca da verdade” em hindi, teoria desenvolvida por Gandhi contra a dominação inglesa, mediante firmeza, constância e não-violência.


Das 24 fases da Operação Lava-Jato, 15 foram batizadas. Exemplos: Triplo-X, relacionada ao tríplex; Nessum Dorma (Ninguém Durma), talvez porque a Federal ataque de madrugada; Pixuleco, como era chamada a propina milionária; Juízo Final (25 presos) e Acarajé, apelido dado pela secretária da Odebrecht ao montante da grana para saciar a fome dos corruptos, em cada caso. A coitada também foi presa.  “Todo mundo gosta de acarajé. O trabalho que dá pra fazer que é” (Dorival Caymmi).


Filosofia “pop” à parte, o juiz Sérgio Moro exagerou na dose ao determinar a condução de Lula, sob vara, até um posto da Polícia Federal para depor. O ex-presidente tem endereço certo, terminou o mandato com 80% de aprovação, sempre se dispôs a depor e já havia respondido às mesmas perguntas em Brasília, onde compareceu espontaneamente. Chutou o “rabo da jararaca” e abriu caminho à vitimização que Lula queria. “Cobra se mata pela cabeça”, conforme o próprio Lula. Esperto, o fundador do PT, que muitos julgavam liquidado, ressurge no papel de Salvador da Pátria, o perseguido pelas elites e a mídia. Voltamos ao  “nós contra eles”. E isto pega.


O movimento “Nós queremos Getúlio” (1945), quase reconduziu o ex-ditador ao poder. Foi impedido pelo Exército, que lutara contra Mussolini e Hitler na Europa, durante a II Guerra, e sentira o peso dos “salvadores”. Mesmo assim, o queremismo teve sucesso na eleição seguinte, de 1951. Eleito, Vargas termina tragicamente, envolto no chamado “mar de lama”. Esse sebastianismo é uma herança portuguesa. O povo clamava pela volta de d. Sebastião, desaparecido em batalha, no Norte da África (1578). Fernando Pessoa fala nessa “busca do patriotismo perdido”, com a ressurreição de um passado que pode ter dado certo, mas em outro contexto. O “desejado”, a figura messiânica continua questionando através dos séculos:  “Onde ficará minha honra? ”


O corresponde de El País, Juan de Onis, capaz de ver a nossa realidade sem o fígado, resume que o Brasil precisa nesta hora é de catarse. Neste caso, seria “uma experiência coletiva pela qual ocorre a expulsão do mal social”. Em síntese, precisamos nos liberar das tensões. E, o que vive nos afligindo há nove meses, é a crise política e econômica que se aprofunda dia a dia, e não é enfrentada.  


Temos que nos livrar, rápido, desse estorvo que é o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha. Não é possível que o corporativismo corrupto entrave reformas fiscais necessárias à recuperação do Brasil. Por ironia, o mercado reage positivamente o terremoto, com o aumento brusco das cotações em Bolsa e a queda do dólar, como se mandasse um recado - “tire o que aí está e vamos para o melhor dos mundos”. Pena que a oposição seja tão inoperante. Também surfa na onda de imoralidades. Faltam condottiere. Há uma série de erros. Começa com o populismo dos sucessivos governos do PT que, na verdade, protege os mais ricos. Os mais pobres sobrevivem, mas continuam miseráveis.


A delação premiada de Delcídio do Amaral, ex-líder no PT no Senado, atinge em cheio a presidente Dilma Rousseff, que procurava se manter distante o seu criador. Agora, Dilma e Lula se igualam num abraço de afogados. Felizmente, as instituições funcionam. Pena que sem instrumentos para varrer todas as mazelas numa só vassourada. Quem sabe nas urnas. O Brasil precisa de uma chance. A jararaca está viva.  


O autor é jornalista e articulista do JC

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