Articulistas

Sobre a fúria das águas, ou da cupidez humana

Fabio Paride Pallota
| Tempo de leitura: 3 min


As águas de março que fecham o verão estão assustando a todos com um descontrole preocupante pela destruição e prejuízos que têm causado em toda a região Sudeste, em especial na cidade de São Paulo e sua enorme região metropolitana.

Mas as “enchentes descontroladas” que parecem uma agressão da natureza na verdade são um processo natural que acontece há milhões de anos.

Algumas centenas deles começaram a dividir espaço com a desordenada ocupação urbana às margens dos rios Tietê e Pinheiros na capital e outros rios de planície na região metropolitana. Essa situação se agravou a partir da década de 1930, quando a “Paulicéia Desvairada” começou a crescer e a discutir quais os modais, tipos de transportes, seriam usados na cidade. Duas tendências começaram a disputar entre si qual seria o transporte ou conjunto de transportes para melhor atender a capital.

De um lado tínhamos o engenheiro Francisco Saturnino de Brito, que em inspirada proposta propunha aproveitar os cursos dos rios Tietê e Pinheiros para formar parques ao longo dos seus trajetos e criar um sistema de transporte fluvial que estaria conectado a um cinturão ferroviário e, finalmente, a um sistema de ruas e avenidas que seriam ocupadas pelo transporte rodoviário. Ao assim fazê-lo, Saturnino visava proteger as várzeas dos rios da capital que ocupavam a distância entre 500 metros do leito dos rios até 1 quilômetro. Assim teríamos uma capital sofisticada ecologicamente, com parques, transporte fluvial, cinturão ferroviário que seriam estudados e comentados em todo mundo. A outra proposta, infelizmente vencedora, foi a do engenheiro Francisco Prestes Maia, que propunha de imediato retificar os leitos dos rios, canalizar os fundos dos vales e construir um plano de avenidas radial concêntrico como algumas capitais e importantes cidades da Europa. Na sua proposta, Prestes Maia “escondeu” que as cidades europeias que adotavam esse sistema rodoviário de avenidas já tinham em funcionamento o seu transporte fluvial e o seu cinturão ferroviário. Ao assim proceder, Prestes Maia seduziu a todos com a possiblidade de ocupar todos os espaços urbanos para a construção do seu sistema de avenidas que roubou a extensa várzea do rio Tietê e do rio Pinheiros, “encaixotados” em grandes obras de concreto, com suas margens retificadas e servindo ao “progresso” de São Paulo que seria a Chicago da América do Sul com seus arranha-céus e avenidas para atender aos automóveis em sua desabalada carreira e atendendo poucas pessoas.

Hoje, o que vemos todos os anos, em especial em tempos de grandes mudanças climáticas, são chuvas catastróficas que obrigam os rios a ocupar o que sempre foi deles: as suas queridas várzeas que ocupam, ocuparam e ocuparão a todo período de chuvas intensas. Não é demais lembrar que as avenidas da nossa capital do Estado, e em outras cidades também, estão a poucos metros dos rios que tem várzeas extensas.

Essa ocupação aparentemente racional, que fez parte de um plano de avenidas, na verdade fez com que a cupidez humana, a vontade do lucro, o desprezo pelo planejamento, a omissão de informações vencessem e hoje tenhamos as tragédias que matam dezenas e causam milhões de reais em prejuízos, sendo atribuídas aos perigosos rios de planície da ‘Paulicéia Desvairada’. Para mais informações sobre essa tragédia anunciada que acontece todos os anos, assista no youtube o vídeo “Entre Rios – A urbanização de São Paulo”. Imperdível, essencial.

O autor é professor de história e colaborador de Opinião

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