Articulistas

O rosto e a mão

Nélson Itaberá Gonçalves
| Tempo de leitura: 3 min

No mês que celebra a mulher reacendem luzes de argumentação em torno do papel e participação delas na sociedade. Enquanto isso, na Central de Polícia Judiciária (CPJ) em Bauru, como em outras, repete-se o rito estatístico de 60% dos registros de ocorrências notificadas estarem ligadas a álcool e drogas e, em olhar mais amiúde, com farto desatino da violência pontuado em históricos breves nos chamados BOs.


Causa espanto constatar que não é somente na ação envolvendo menores infratores que a polícia, com erros e acertos, “enxuga gelo”. No caso dos menores, a polícia reclama, com dose de razão, que a norma penal acaba “protegendo” a impunidade. Debate antigo que, entretanto, nunca alcança a origem: a falência do Estado brasileiro como protagonista em oferecer oportunidades ao invés apenas da senzala social.


Conversando com profissionais de psicologia, PMs e delegados, nos últimos dias, me causou reação verificar que, fora do universo do crime, jovens (heteros, homo e trans) estão se agredindo por motivo fútil com cada vez maior frequência. A ocorrência não escolhe classe social, nem corrente filosófica.


São meninos e meninas, adolescentes e mais adultos, até os 29 anos, trocando bofetadas por quase nada, ou nada! No alerta de psicólogos está, claro, a degradação de valores morais. Mas as bofetadas e quebra quebra traduzem outros erros e preocupações.


Os profissionais advertem para pais irresponsáveis que, sob o escárnio do argumento de falta de tempo, terceirizam a educação dos filhos, em casa. E, muito comum, são eles também os mais assíduos na fila de reclamação contra problemas ocorridos com seus filhos, ou por eles, junto à escola. Outra parcela, menor, mas não menos preocupante pois está no campo da ignorância sociológica, avança sobre os “ingênuos” sob o véu da ignorância do uso da fé, atribuindo os desatinos ao “encosto”.


Maldade e manipulação à parte, na origem dos tapas e dos surtos não está a rebeldia, mas a formação de filhos sem senso de valores morais e éticos e a negligência de pais, ou omissão. Sem generalizar, jovens que dão pancada, um no outro, costumam ter sido criados sem saber ouvir e lidar com o “não”.


Em sintética acusação firme: não sabem lidar com frustrações. E a afirmação pode ser ancorada a partir de pequenos e simbólicos exemplos, que trazem profundidade na problemática. Muitos desses não só não arrumam o próprio quarto, aqui, frise-se, trazido como simbologia de ausência de regras no convívio familiar, como desenvolveram comportamentos exacerbadamente egoístas. E, nos namoros precoces, a imaturidade associada à falta de limites e regras simples de civilidade, acaba esgarçada em mordidas e arranhões.


São filhos que foram “convidados” pelos pais a viver o mundo sem responsabilidade e, em outro sentido, vieram ao mundo sem aprender a dar e receber afeto. São vítimas em parte e, em outro prisma, protagonistas da repetição de padrões de violência moral e de convivência. E assim se faz a perigosa trilha da história dessa geração, onde o maior desafio para os pais “contemporâneos” é exercitar o amor pelo “não”. Pais, por favor, aprendam a amar através do “não”!


O autor é jornalista e compositor

Comentários

Comentários