A vergonha hoje tem endereço certo: está na “nova” Europa. Dezenas de milhares de imigrantes estão na eminência de pagarem com suas vidas a brutalidade e a desumanidade das nações europeias. “Mas de onde vieram esses imigrantes?” perguntam os cínicos e ignóbeis europeus, fartos de cobertores e guloseimas em suas confortáveis casas. No mesmo instante, a poucos quilômetros de suas casas, agonizam - de fome e frio - mulheres, crianças, idosos e homens que foram ceifados de suas nações pelas guerras promovidas pela própria Europa.
Os governantes da União Europeia contabilizam suas respectivas perdas de popularidade na mesma proporção do tamanho de suas “gentilezas”. O recado já está dado pela opinião pública: “Ajudem os imigrantes e perderão as próximas eleições!” Esse é a democracia europeia. Linda e covarde. Paga aos custos dos desastres humanitários que ela mesma provoca a todo o terceiro mundo, espoliado e atacado. A democracia europeia é a tirania dos povos pobres desse planeta. Enquanto os europeus defendem seus preciosos mármores, não se envergonham em profanar violentamente os povos que são os guardiões da origem de todas as civilizações e da própria humanidade.
Tanta opressão generalizada só iria ocasionar um único resultado geográfico: a fuga desses povos para a própria Europa, pois, ou os imigrantes morrem em seus países, com as bombas europeias e norte-americanas, ou tentam sua sorte na Europa. Apenas a demência poderia fazer alguém chegar à conclusão de que famílias inteiras, perceptivelmente “estruturadas”, iriam se arriscar ao mar aberto do inverno europeu - em precárias embarcações - caso isso não fosse a única opção que elas tivessem em suas vidas. Mas a demência é o que mais se encontra hoje nas ruas do mesquinho Velho Mundo.
No meio de sua demência, os europeus se esqueceram que eles mesmo redigiram os “Direitos Universais” dos refugiados, com generosas concessões e garantias. A questão é que os europeus redigiram esses “direitos” durante a Guerra Fria, quando os mesmos eram o “canto da sereia” para aqueles que viviam no mundo socialista. Bom, ao que parece eles se esqueceram de apagar esses direitos em 1991 e, em 2016, a máscara da Europa humanitária cai junto com as bombas de gás lacrimogêneo lançadas por seus soldados contra inocentes imigrantes, esmagados em suas fronteiras.
A União Europeia acaba de fazer no dia 3 de março de 2016 uma declaração histórica a todos os imigrantes a qual reproduzo na íntegra: “Não procurem a Europa. Aqui vocês não serão recebidos. Não arrisquem suas vidas e nem seu dinheiro. Aqui vocês não entrarão.” Essa é a voz da Europa. A Europa que arrecadou 20 vezes mais de seus cidadãos, em doações, para a proteção dos animais do que para ajudar seus semelhantes que estão hoje em seu solo.
A vergonha hoje tem uma face, tem uma forma e tem os endereços exatos, aliás, milhões de endereços. Mas tem apenas um nome: Europa. As gerações futuras hão de se lembrar dessa infâmia. Espero apenas que se recordem também que alguns a denunciaram, a qualquer custo. Mas que ninguém espere do futuro qualquer absolvição. E é certo que ele nascerá. Seja dos ventres das mulheres que dormem essa noite, ao relento no duro chão europeu, ou em qualquer outro lugar deste mundo. No fim, a humanidade prevalecerá para o bem da própria humanidade. Ela triunfará.
O autor é professor de história/USP e diretor do Instituto de Ensino D’Incao