| Ale Frata/Estadão Conteúdo |
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| Mick Hucknall e baixista Steve Lewinson em primeiro dos dois shows no Brasil em São Paulo: apresentação, hoje, será no Rio |
Quando surgiu, há 30 anos, o Simply Red não poderia mesmo arrebatar jovens brasileiros da época, mais interessados que estavam à politização proposta pelo rock nacional do que ao soul pop que soprava de Manchester, Inglaterra – berço do grupo. Não é mais assim.
O tempo passou, o rock nacional desidratou e o soft rock do Simply Red permaneceu: dessa vez, atraindo jovens de hoje, com seus pais, em busca de algo, ao mesmo tempo, palatável e sofisticado. Encontram o que procuravam na noite de terça-feira no Citibank Hall, em São Paulo.
A vigente hegemonia da música gritada ou gemida ou sussurrada só faz valorizar as melodias sinuosas, mas com destino certo, em sereno equilíbrio na voz de Mick Hucknall. Como compositor, intérprete e líder, o ruivo nem tão ruivo assim é, tecnicamente, o cantor perfeito.
Afinado em qualquer variante das canções, mantém no palco um grande respeito pelo público para recriar ao vivo, à imagem e semelhança, hits atemporais como “Holding Back the Years” e “Four Your Babies”.
Há algum quase imperceptível descompasso aqui e ali, mas nada que estrague a performance matadora do grupo no primeiro dos dois shows brasileiros da turnê mundial comemorativa de seus 30 anos, que o JC acompanhou.
O respeito ao público é sentido, ainda, nos efeitos visuais de palco, sincronizados com as canções em imagens ao fundo de alta resolução. E em dois retornos no fim, já programados, mas não menos festejados.
Outra forma respeitosa foi brindar o público com muitos sucessos sem forçar a barra para enxertar, a qualquer custo, novas canções em fase de divulgação presentes no bom 11º disco de inéditas, lançado em 2015, “Big Love”.
O que sobrou de respeito da banda a seu público faltou na tumultuada entrada dos fãs e agregados: filas imensas e desorganizadas se formaram sob garoa na noite paulistana. Foi um “salve-se quem puder”. “A pessoa vai na Paulista protestar contra a corrupção, mas faz isso aí”, criticava um paciente integrante da fila ao revelar o que ocorria logo ali na frente e que acabara de testemunhar: muita gente aproveitando o rebolo para furar e entrar antes.
Questionados, os furões ensaiavam jogar a culpa na falta de orientação enquanto as portas não se abriam. Isso é Brasil. A culpa sempre é dos outros e os delitos, grandes ou pequenos, também. Após o show, a nova falta de educação ganhou aspectos monetários: R$ 130,00 para uma curta corrida de táxi, alvo de nova aporrinhação aos justos. Nada, contudo, que tirasse o brilho de uma noite com a banda que toca “Stars”.
Por encerrar, a arrebatadora “If You Don’t Know Me By Now” até parecia funcionar como uma matreira indireta de Hucknall. Talvez quisesse mesmo dizer: se você não me conhece até agora, jamais me conhecerá.
Mas há uma segunda chance ao público brasileiro, inclusive para que possa se redimir e demonstrar mais educação na entrada: será hoje à noite, no Metropolitan do Rio de Janeiro. Basta se colocar em seu lugar: simplesmente assim.
