Em meio a todo caos que o país está enfrentando, o que mais se ouve são julgamentos e acusações contra esse ou aquele político, com pedidos reverberantes de impeachment ou cassação de mandatos, em decorrência de supostos atos de corrupção, desvio de verba pública ou crime de irresponsabilidade fiscal. O fato é que a nação quer e exige mudanças. Mas que mudanças são essas? Com a saída daqueles hoje empossados nos mais diversos cargos do executivo e do legislativo, quem assumirá tais posições?
Sobre isso não ouço nada. E a sensação que tenho é que ninguém quer pensar a respeito. Mas por quê? Por que a população não enfrenta, de uma vez por todas, os seus fantasmas e vai ao fundo da questão, para descobrir que rumo o país deve tomar? A resposta não é simples, mas acredito que passa pelo seguinte ponto: o problema de corrupção no Brasil não é exclusivo dos detentores de cargos públicos; é um problema institucionalizado, arraigado na cultura do povo.
Estou longe de dizer, como já ouvi de alguns, que “o problema do Brasil são os brasileiros”, mas algumas questões complexas têm que ser enfrentadas e debatidas. Precisamos compreender que desviar verba pública é sim corrupção (e deve ser penalizada com rigor), mas “puxar gato” de energia elétrica, entregar atestado médico falso, pagar meia entrada no cinema sem ser estudante, estacionar em vaga de deficiente (sem o ser), furar fila... essas e tantas outras condutas rotineiras dos brasileiros são tão condenáveis quanto àqueles praticados pelos “detentores do poder”.
É necessário entender que o corrupto não nasce na nomeação ao cargo; ele já existe em cada brasileiro que pratica atos no mínimo imorais, apenas para ter vantagem indevida ou por se sentir protegido pelo discurso de que “todos fazem o mesmo”.
Não adianta sair às ruas, abalar a tão recente democracia brasileira com a abrupta retirada da chefe do executivo, se nem sabemos quem deve assumir seu posto. E aqui acho importante fazer uma ressalva: sou filiada a partido de oposição e estou participando das atuais manifestações, clamando por mudanças. No entanto, me gera insegurança pensar no amanhã, já que estamos apontando crimes e irregularidades ocorridas nos três poderes, sem analisar os desvios e falhas cometidas por nós ou nossos vizinhos no dia a dia.
Mudar a ordem estabelecida é fundamental. Mas essa mudança tem que sem completa. Precisamos livrar o Brasil desses maus hábitos que são diariamente repetidos sem que se perceba. É necessário extirpar o “jeitinho brasileiro”, para que as novas gerações compreendam que as filas devem ser obedecidas, os impostos devem ser recolhidos, as minorias devem ter seus direitos atendidos, enfim, o próximo deve ser respeitado.
No momento em que um cidadão comum faz acordo com seu empregador para receber o seguro desemprego sem ter sido demitido, esse cidadão está beneficiando-se indevidamente, da mesma forma que os políticos ao desviarem verba. Não podemos analisar distintamente esses dois cenários, pois o cidadão que recebe salário desemprego de forma fraudulenta pode ser o presidente da república de amanhã. E todas essas manifestações, todos os buzinaços, todas as palavras de ordem gritadas aos quatro ventos, terão sido em vão.