Regional

Encenação une os fiéis católicos

Aurélio Alonso
| Tempo de leitura: 5 min

 Rodrigo Tomaz/Divulgação
Ator Jaderson Pereira pretende repetir um Cristo mais martirizado na encenação de São Manuel

As manifestações teatrais da paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo são espetáculos populares montados por comunidades religiosas. Na região, por exemplo, os eventos são organizados em paróquias de bairros. Nos últimos anos vêm ganhando mais estrutura, apoio do poder público e da própria igreja católica.

O professor de filosofia Fausi dos Santos afirma que na alta Idade Média já havia essas manifestações populares. “Naquela ocasião tinha a ver com a evangelização. Para chegar às pessoas toda a intensidade do mistério que circunda a morte e ressurreição de Jesus Cristo nada melhor, didático para aquela população que era analfabeta, usar da arte teatral. A expressão artística era muito utilizada”.

É uma manifestação mais católica na Semana Santa. Entre as igrejas evangélicas mais tradicionais é raro encontrar esse tipo de incorporação artística. Segundo Fausi, é mais comum nas igrejas neopentecostais, por possuir uma teologia mais aberta. “Diria que há certa resistência por grande parte das igrejas evangélicas, justamente para não se assemelhar com a católica”, comenta.

Para o professor, esse teatro ao vivo ajuda a fortalecer a fé. A seguir os principais trechos da entrevista.

 

JC - Essas manifestações teatrais da Paixão de Cristo na semana da Páscoa envolve cultura popular?
Fausi dos Santos -
Sim, na verdade essa encenação da morte e ressurreição de Jesus Cristo remonta há vários séculos. Na alta Idade Média já havia essas manifestações populares em torno disso. Naquela ocasião tinha a ver com a evangelização. Para chegar às pessoas toda a intensidade do mistério que circunda a morte e ressurreição de Jesus Cristo nada melhor, didático para aquele população que era analfabeta, usar a arte. A expressão artística era muito utilizada assim como os presépios têm essa conotação didática. Hoje todas as manifestações que envolvem a paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo estão ligadas às comunidades de base, porque elas incrementam essas encenações com características culturais de cada região. Então, há um tom antropológico que frente à realidade seja de miséria e fome, diversidade cultural de cada região, encontra elementos que são incorporados nessas encenações. O pano de fundo sempre é a paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo, mas elas acabam encarnando essas características do dia a dia do cotidiano desses grupos.

JC - A instituição Igreja Católica aceita essa participação ou tem restrição?
Fausi -
Dentro da Igreja Católica há duas expressões teológicas que são bem utilizadas: a igreja militante (a das comunidades) e a institucional (a oficial). Essa igreja militante quando incorpora essas características tem o respeito da instituição a esses elementos. Eles entendem teologicamente que a fé é viva. Como é viva, ela deve se incorporar à realidade do homem e da comunidade. Em algumas regiões do mundo, como nas Filipinas, há a questão da mutilação, onde há pessoas que acabam sendo crucificadas. Nesse sentido há desaprovação da Igreja, porque não pode ocorrer qualquer tipo de ritual que envolva dor, sofrimento, uma vez que aquele que se emola para regeneração do homem é o próprio Cristo. Fora desses casos extremos, há total apoio a esses movimentos de cultura popular.

JC - A encenação da paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo é um evento católico, porque não é usual ver os evangélicos promoverem esses espetáculos teatrais?
Fausi -
Entre os evangélicos é importante separar que existem três tipos de grupos:  evangélicos do tipo protestante que remontam ao século XVI da Reforma de Martim Lutero, há as igrejas pentecostais (início do século XX vinculada ao pentecostes, o espírito santo) e as neopentecostais (da década de 80 para cá, que são igrejas de teologias mais aberta). Entre as igrejas mais tradicionais é muito raro encontrar esse tipo de incorporação artística, apesar que há. É muito mais comum nas igrejas neopentecostais, por possuir uma teologia mais aberta, abrindo a características que existem nas outras igrejas, acaba sim existindo manifestações mais artísticas e muito positiva para a missão de evangelização dessas igrejas. Diria que há certa resistência por grande parte das igrejas evangélicas, justamente para não se assemelhar com a católica.

JC - Esses eventos unem muito essas comunidades?
Fausi -
Essas manifestações ajudam no fortalecimento da fé, isso é muito importante. Para essas comunidades, onde todas as pessoas participam da organização dessas festas, na verdade tem uma integração das pessoas. Essa vivificação que se dá por meio dessa união é salutar para a própria comunidade, como identidade cultural. A fé nada mais é do que manifestação popular. É interessante ver pessoas simples, em outras situações que nunca subiriam em um palco como figurante ou para contracenar, e que ali vão além de si. Eles acabam incorporando um personagem. Esse movimento a meu ver numa leitura mais antropológica é interessante como ambiente de coesão social.  


Cristo mais ‘judiado’ de São Manuel se ‘inspira’ em filme de Mel Gibson

Quem se depara com as fotos da última apresentação da encenação da Paixão de Cristo de São Manuel vai perceber que o rosto de Jesus está sempre todo ensaguentado. As cenas são mais fortes iguais à do filme Paixão de Cristo, dirigido por Mel Gibson.

A película de 2004, dirigido por Mel Gibson e estrelado por Jim Caviezel como Jesus Cristo, causou polêmica. Ela retrata a Paixão de Jesus, em grande medida de acordo com os Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João do Novo Testamento. Inspira-se também sobre a Sexta-Feira das Dores, juntamente com outros escritos devocionais.

A polêmica levantada por críticos é a violência extrema a Jesus. Por isso se questionou até a autenticidade do não-material bíblico baseado para o filme.

O ator e vendedor de tinta de São Manuel Jaderson Henrique Pereira, 33 anos, conta que a roupa de Jesus foi feita de sacos de café copiada do filme de Mel Gibson e a coroa de ferro confeccionada com ajuda de um serralheiro. “O Cristo é mais judiado. Ainda tenho as minhas costas bem marcadas. A cada ano vamos evoluindo e no ano passado incluímos a flagelação. Este ano vamos repetir.”

Pereira relata que para interpretar Jesus há toda uma preparação. No dia da apresentação, os atores ficam concentrados em uma escola próxima do local. “A gente faz um retiro, reza, canta e se prepara para a encenação”, cita o ator. Em São Manuel, o espetáculo será na sexta-feira, às 17h na frente da Igreja Nossa Senhora de Fátima (Cohabs I e II) e dia 26 de março às 22h no campo de futebol das Cohabs I e II.  A encenação é realizada há 21 anos no município. 

 

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