A negação, não raro, é um mecanismo utilizado para nos livrarmos das dores psicológicas. Quando as evidências trazem à luz os equívocos das nossas crenças mais altruístas, tendemos, ao menos inicialmente, a criar um complexo de “verdades simples” e “mentiras essenciais” que justifiquem por que gastamos tanto tempo e energia em uma manifesta ilusão.
Um pai tortura os filhos? Alguns dirão: meu pai não me amou o suficiente, pois quem ama não tortura. Outros, evitando a dor adicional que leva a essa conclusão lógica, mas emocionalmente massacrante, dirão: fui torturado, mas meu pai me amava tanto quanto todos os outros que não torturam, apenas tinha problemas emocionais e um jeito rude, agravado pelo álcool e pela responsabilidade de educar. Pronto: essas verdades simples demais ou essas mentiras essenciais para disfarçar as evidências não serão capazes de apagar as dores das torturas, mas evitarão a dor de enfrentar a dureza dos fatos. É um mecanismo instintivo. Nossa estrutura emocional nos protege da dor. Disfarça os fatos, nos engana para sofrermos sempre o mínimo.
O problema é que, racionalmente, sabemos que, como diz o ditado, “sem dor, sem ganho”. Criar uma desculpa para não sofrermos individualmente é um ato egoísta, pois legitima a conduta errada que, uma vez justificada, tende a ser perpetuada (inclusive por nós mesmos), levando a outros as mesmas agruras que experimentamos. Como dizia Sócrates em sua maiêutica, a verdade não está no outro, está em nós. Contudo, para trazê-la à luz é preciso se dispor às dores desse parto, pois, do contrário, ela jamais chegará a nascer. É doído ceder o espaço das nossas crenças ao império dos fatos, mas é necessário fazê-lo se quisermos evoluir. Isso não nos faz “perder” para o outro, pois a verdade vem de nós mesmos, não desse “outro” abstrato. Na vida, às vezes erramos. Acontece, ora bolas! Então, que nossas abordagens equivocadas não sejam motivações egoístas para turvarmos a realidade e obstruirmos o alcance da razão a fim de evitar a dor de nossa vaidade intelectual ferida.
Assim como um pai não precisa torturar para educar, ninguém precisa te roubar para te beneficiar. Isso é ilógico, é absurdo! Assim como o vizinho que tortura o filho na casa ao lado não legitima a tortura realizada no outro imóvel, ninguém pode ser abonado por um roubo sob a escusa de que outros roubaram também. Havendo provas ou ao menos indícios de ilegalidades perpetradas por terceiros, não se deve utilizá-las como justificativa para as próprias ilicitudes, mas sim utilizar o poder persecutório do Estado, que está em suas mãos, e acionar as investigações cabíveis. Não se trata de faculdade, é dever proceder assim!
Sem querer entrar em detalhes fáticos, quando TCU, STF, TRF, TSE, Polícia Federal, Ministério Público Federal e Estadual, OAB, parlamento, Ministério Público de vários Estados estrangeiros, imprensa nacional e estrangeira, dezenas de delatores e a manifesta maioria da população brasileira começam todos a caminhar no mesmo sentido, é razoável, e até humilde, ao menos considerar um tanto quanto improvável que todos tenham se mancomunado e combinado a sustentação das mesmas mentiras, forjando as mesmas provas e fatos no intuito comum de engendrar um golpe, sobretudo quando o contraditório revela que a versão que se opõe às conclusões de todas essas instituições são, para dizer o mínimo, profundamente frágeis.
Às vezes, um roubo, vejam só, é apenas um roubo mesmo, apenas um caso de polícia, sem qualquer conotação ideológica que o justifique. Reconhecer isso pode ferir as crenças e sentimentos que abrigamos por tanto tempo, pode doer, mas seguramente faz crescer. Como dizia Nietzsche, “o que não te mata te fortalece”. Fortaleça-se!
O autor é analista judiciário, especialista em Direito Eleitoral – luciano@lucianoolavo.com.br