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104.600 motivos para mudar

Reinaldo Cafeo
| Tempo de leitura: 3 min

O saldo entre contratações e demissões no Brasil em fevereiro resultou no fechamento de 104.600 vagas no mercado de trabalho. Entendo que cada trabalhador que perdeu seu emprego deve ser motivo mais que suficiente para exigirmos mudanças na condução da política econômica brasileira. Quando ouço e vejo que o embate político atual mais parece um jogo entre Flamengo e Fluminense, o chamado Fla Flu, me pergunto de que lado as pessoas estão.


Por exemplo: de que lado o Partido dos TRABALHADORES (em letras maiúsculas mesmo) está? Quantos militantes deste partido saíram às ruas em apoio aos trabalhadores que perderam seus empregos? E os demais partidos que se alinham a base política do atual governo? Mesmo a oposição, quais a reais propostas para o País sair da crise? Vivemos um momento delicado no Brasil. A crise de governabilidade é evidente e o conturbado ambiente político não permite avanços na esfera econômica.


A atual equipe econômica, fraca, tenta introduzir uma agenda dos principais itens necessários para começarmos a pensar em recuperação econômica, mas as articulações políticas do atual governo vão em outra direção. O agora ministro sem pasta Lula utiliza o adiamento da reforma da Previdência, por exemplo, como moeda de troca para garantir que a presidente Dilma Rousseff permaneça em seu posto, além de defender o uso de reservas para “animar” a economia.


O encaminhamento político tem indicado que o modelo econômico, ou melhor, a colcha de retalhos que se pretende para eventualmente recuperar a nossa economia, tende a ir na direção do populismo, do evitar temas polêmicos, de não atacar as causas estruturais do País e, possivelmente, na tentativa de utilizar instrumentos econômicos que não se sustentam, como é o caso de incentivar o endividamento das famílias para elevar o consumo interno.


Volto à questão inicial: quem está ou quem irá defender os trabalhadores que perderam seus empregos? Estudos apontam que neste ano serão perdidos até 1,5 milhão de empregos. Se considerarmos dias corridos, são mais de 4.100 demissões por dia. No fim do dia de hoje pais de família, mães de família, filhos, pessoas que ajudam a sustentar os seus terão que dar a notícia de sua demissão e, o que é pior, em um cenário de pouco alento para recolocação no mercado de trabalho.


Pensar em mudanças para promover a justiça social é golpe? E mudar não indica necessariamente retirar o atual governo, mas o desejo de inaugurar um novo tempo no país, mas como já colocado, não é isso que os atuais governantes tem em mente: querem salvar suas peles e o jogo do toma lá da cá será praticado em seu limite máximo e o interesse pessoal prevalecerá.


Depois não adianta alardear que o atual o partido que comanda o país, que está em seu quarto mandato, foi o que “nunca antes na história do país permitiu a ascensão social dos mais pobres”. Sabe de uma coisa? Quem sente mais na pele a crise é exatamente os mais pobres. De um lado pela carestia, pois sequer controlar a inflação o atual governo consegue, e de outro pelo achatamento de sua renda.

Os que têm melhor condição social possuem reservas financeiras e podem, no extremo, se desfazerem de algum patrimônio até que as coisas mudem, não é o que ocorre com o trabalhador mais simples. Este não tem onde se segurar. Até quando faremos vistas grossas ao óbvio? Se efetivamente querem justiça social neste País passou da hora de trabalhar para agenda positiva que dê início a recuperação econômica do Brasil.


Há, como colocado, 104.600 motivos para mudar, ou melhor, potencialmente 1,5 milhão de motivos somente este ano para mudar. Fla Flu? Não, desrespeito ao cidadão de bem!


O autor é economista, articulista do JC

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