Política

Corredores lotados no Pronto-Socorro Central de Bauru

Vinicius Lousada
| Tempo de leitura: 5 min

Malavolta Jr.
De novo: corredores lotados viram ‘leitos’ improvisados

Faltam macas. Algumas delas, sem colchão. Muitas, sem travesseiros. Outras, instaladas no banheiro onde pacientes deveriam tomar banho por falta de espaço em meio a corredores lotados. Idosos internados há dias, mal acomodados, passando calor. O caos imperava no Pronto-Socorro Central na tarde desta quarta-feira (23), quando mais de 20 pessoas esperavam a liberação de leitos hospitalares para internação. Em toda a rede de urgência e emergência, que inclui as UPAs, 45 aguardavam encaminhamento, segundo a assessoria de imprensa da Prefeitura de Bauru.

O problema, antigo, que já resultou em inquéritos e ações do Ministério Público, já foi mais grave, mas, de vez em quando, volta a assolar os usuários do sistema de saúde de forma aguda.

A reportagem do JC esteve no Pronto-Socorro e constatou o drama enfrentado por pacientes e seus familiares; alguns já há mais de três dias e sem perspectivas de um atendimento digno.

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Para melhor acomodar sua mãe Solange, Gisele levou ventilador de casa para a enfermaria da unidade

É o caso de Solange da Silva, 63 anos, que chegou à unidade na última segunda-feira (21), dois dias após ter recebido “alta” da UPA Bela Vista.

Sua filha, Gisele Ferreira da Silva, 32 anos, conta que a mãe ainda aguarda a liberação de exames para saber o que motiva as fortes dores abdominais, associadas a constantes vômitos e fezes esverdeadas.

“A situação é tão ruim, que já presenciamos brigas e discussões entre pacientes e funcionários. O calor é insuportável e não há sequer ventilador na enfermaria. Tivemos que trazer um de casa. Na expectativa dos exames, deixam minha mãe de jejum por muito tempo”, relata.

INFERNO

Para Gislaine Ferreira, 40 anos, os corredores do Pronto-Socorro são o retrato do que imagina ser o inferno. “São poucos funcionários para dar assistência e alguns bem intencionados são destratados. Agora há pouco, um médico japonês gritou com eles na frente de todo mundo”, reclama.

Ela está acompanhando a mãe, Maria Imaculada Ferreira Pereira, 67 anos, que, chegou à unidade às 16h de terça-feira após cair e fraturar a coluna e, mais de 24 horas depois, ainda esperava a liberação de um leito hospitalar.

DESCASO

O caos instalado no Pronto-Socorro afeta pacientes de todas as idades. Com um quadro de apendicite, Brian Felipe da Silva, 13 anos, estava desde as 20h do dia anterior aguardando encaminhamento.

Seu pai, João Rodrigo Soares da Silva, 33 anos, conta que, além das fortíssimas dores, o menino estava sem comer e sem beber água desde então. “Apendicite é urgente. Não dá para ficar esperando”.

Desespero

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Filomena Aparecida Silva, 44 anos. Ela chegou com a mãe, Anízia Rosa de Souza Silva, 83 anos

Dentre os acompanhantes dos pacientes “internados” no Pronto-Socorro Central, Filomena Aparecida Silva, 44 anos, era uma das mais desoladas. Ela chegou com a mãe, Anízia Rosa de Souza Silva, 83 anos, à unidade na última terça-feira (22), somente após a sensibilização de uma assistente social da rede municipal, diante do quadro clínico da idosa: um maligno e violento tumor no cérebro.

“Fomos à UPA no sábado porque ela reclamava de muita dor de cabeça. Chegando lá, o médico quis dar alta, mas eu exigi uma tomografia. Na verdade, precisei implorar. Foi aí que veio o diagnóstico. Mesmo assim, mandaram minha mãe para casa, para aguardar uma consulta no dia 4 de abril, em Botucatu. Só que ela pode morrer a qualquer momento”, relatou. Já chorando...

Estado: há divergências no controle de pedidos

Integrante do Conselho Municipal de Saúde, Rose Lopes acompanhou a reportagem no Pronto-Socorro e afirmou que há dois dias não eram liberadas vagas hospitalares para pacientes que lá aguardavam, quadro que começou a se reverter, segundo ela, poucas horas após a passagem da equipe do JC pela unidade.

Rose disse ainda que o tempo de espera por leitos voltou a se tornar um problema frequente no município nas últimas semanas, a partir da desativação gradual do Hospital Manoel de Abreu, que será reformado.

A Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, responsável pelas internações, nega qualquer relação com o fechamento de eventuais episódios com o processo de desativação da unidade.

Isso porque a pasta abriu no Hospital Estadual, Hospital de Base e Instituto Lauro de Souza Lima mais leitos do que a quantidade ofertada no Manoel de Abreu.

Em nota enviada ao JC às 18h20 dessa quarta-feira (23), a secretaria, por meio da Central de Regulação de Vagas e Ofertas e Serviços de Saúde (Cross), esclareceu ainda que, dentre os pacientes citados pela reportagem, todos as solicitações de vagas eram relativas à data de 23 de março e nenhuma havia sido pedida há mais de seis horas. A paciente Solange Silva, por sua vez, sequer constava em seu sistema.

ESCLARECIMENTOS

“É preciso esclarecer que é incorreto utilizar o tempo em que o paciente está internado na unidade para classificar como ‘tempo de espera por transferência’. A Cross só consegue viabilizar a transferência de um paciente a partir do momento em que a unidade solicitante, no caso o PSC, o insere no sistema da Cross e não no site da prefeitura”, pontuou a nota, em relação às informações disponibilizadas pelo município.

A Secretaria de Saúde negou ainda a informação de que nenhuma vaga hospitalar havia sido liberada nos últimos dois dias. “Apenas na data de hoje, até as 17h30, 11 pacientes do PSC haviam sido regulados pela Cross”.

A Famesp, organização social que gerencia os hospitais de Bauru, não comentou o caso. O JC também não conseguiu contatar o secretário municipal de Saúde, Fernando Monti, nem o diretor de Urgência e emergência da pasta, Luiz Antonio Bertozo Sabbag.

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