Caí na besteira de dizer que mandaria os documentos no dia seguinte. A recepcionista, ao telefone, me devolveu: “O senhor poderá estar podendo enviando tudo para a nossa central? Então, por favor, precisamos estar pedindo para o senhor estar podendo anotando o nosso endereço”. Irritado, minha vontade foi perguntar à “gerundista” se ela poderia estar podendo plantar batatas, mas, como sempre, fiquei só na vontade, nada disse.
Claro que exagerei nas tintas sintáticas da recepcionista, mas, se pego forte assim, é para mostrar o quanto me emputece essa burra mania de se exibir. Que ideia besta essa de achar que a linguagem é coisa para enfeitar, assim feito árvore de natal. O gerundismo, por exemplo, é bem isso, um enfeite – aliás um ENFEITÃOOO - uma forma gritante de aparecer, uma melancia no pescoço. Não consigo entender como o vaidoso “gerundista” não percebe o tamanho do ridículo que é ter no pescoço essa frutona toda.
Não no pescoço, mas na cabeça de muita gente existe um grande equívoco: achar que “falar difícil” demonstra inteligência, cultura, competência. Ledo engano. Essa verborreia, verdadeira diarreia verbal, só mostra o quanto são coloridas e vaidosas as penas do redator-pavão. Quem escreve e fala enfeitado fica dançando na frente do texto, o que atrapalha a leitura. Essa pavonice coreográfica cumpre objetivo único: mostrar o ballet de que o redator se julga capaz, nenhuma preocupação tem ele com a necessária informação. O leitor, sempre interessado na mensagem, revolta-se com a vaidade das sapatilhas e estoura: “saí da frente, desgraçado, com você aí, não consigo ler nada!”
Como pode um redator ficar na frente do texto e do leitor? Não dá pra aceitar, é muita melancia! A boa linguagem deve ser produzida pensando não no próprio umbigo, mas na compreensão do outro, que por acaso é o nosso leitor, o nosso ouvinte. A meta é facilitar e não complicar. Texto bom é água que desce gostosa, cristalina. Se engasgar, o texto é ruim. O bom enunciador, como um bom juiz de futebol, não se deixa perceber, oculto faz a bola rolar, intervém apenas quando necessário. Vocabulário simples e pertinente, frase na ordem direta, concisão, coesão e objetividade. E que não se esqueça do fundamental: falar para dizer, jamais para se exibir.
Modismo sim. Também as palavras, como o resto das coisas, entram e saem de moda. A nível de exemplo (sic), como foi difícil aguentar o arrogante “a nível de”. Agora, que o “a nível de” começa a nos dar algum descanso, o termo “foco” entra em foco e todo mundo se diz, a todo momento, estar “focado”. Focado, por exemplo, no prestígio do vocabulário anglicano. Em uma reunião, diga-se “coffee break”, que, em hipótese alguma, pode ser confundido com um simples intervalo para café. Uma coisa é ser “personal trainer”, outra bem mais chinfrim é ser professor de exercícios físicos. Se agora é possível ser “coach”, por que ser um reles instrutor ou orientador? Aliás, “coach” está bombando!
Muitas pessoas simplesmente jogaram no lixo o verbo iniciar. Agora, não iniciam mais nada, preferem “startar.” E assim vão “startando” performances em busca de um otimizado “upgrade”. Outros já não imprimem textos, “printam”. E se nos enviam um texto reescrito, dizem tratar-se de um “remake”. E assim vamos nós “remakando”, “startando”, “printando” porque, ao contrário do que diz o rock, a gente somos “fashion”, inútil jamais.
Há aqueles que se orgulham de serem fiéis ao nosso vernáculo. Nem por isso menos exibidos e, o pior, muitas vezes são descuidados. Olha só como o vaidoso redator publicou esta nota de falecimento: “Importantes autoridades civis e militares compareceram ao féretro do prefeito”. Como assim? Se a palavra “féretro” significa caixão, como entender tanta gente “comparecendo” e se apertando na urna mortuária do pobre prefeito? Assim, não dá. Muita melancia e, agora, tem abobrinha fúnebre também.
O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras - curso_romag@uol.com.br