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Cuba e a ressurreição

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Quem diria, Heráclito de Éfeso continua certo, 2.500 anos depois de ter afirmado que “tudo flui” (panta rei) e ser reconhecido como o “pai da dialética”. Nada é para sempre. Nem mesmo o seu pensamento que ainda desafia os séculos. Depois de 88 anos sem a visita de um presidente norte-americano a Cuba, o Air Force One sobrevoa pela primeira vez os céus de Havana e Barack Obama desembarca. Desce as escadas da aeronave mais conhecida do mundo, protegendo a primeira-dama com um guarda-chuva preto. Seria um exemplo de humildade.


Mais parecia um soba africano. O importante é que subiu no conceito do povo cubano, ao pôr fim a 50 anos sem relações diplomáticas entre os dois países, separados por apenas 150 quilômetros de mar, pelo estreito da Flórida. Três dias depois, os Rolling Stones descem na Ilha e cantam de graça para uma multidão de jovens, velhos, crianças e heróis remanescentes de Sierra Maestra. Quinhentos milhões de expectadores na Ciudad de los Deportes. Outro tanto lá fora, ouvindo pelos alto-falantes. Nos telões, a multidão admira um novo tipo de requebros, sem bongôs e atabaques.


E sem ritmo de rumba ou de mambo. Úúúú. O rock havia sido banido há meio século pelo regime de Fidel Castro. Há 30 anos era ouvido clandestinamente. Imagine Mick Jagger cantando “Sympaty for the devil”. Terminou com o clássico “Satisfaccion”, diante da plateia ululante, mais do que satisfeita com o fim do próximo embargo econômico e “el futuro en las manos del pueblo cubano”, como disse Obama. Relatam os jornalistas enviados que Jagger perguntava: “É verdade ou não é?” “Éééé...”


Tudo muda. Inclusive a Páscoa. Espiritualmente, o Ocidente vive hoje uma cultura laica da “morte de Deus”. Isso significa que, muito embora permaneçam os rituais e as liturgias, Deus deixou de ser o centro de referência na vida da sociedade em geral, incluindo os próprios cristãos.  Pelo menos ainda não chegamos ao desvario de adorar um Deus tanatológico, que jamais abraçou a vida como sua fonte de destinação. Em nome desse Deus, os fundamentalistas se imolam, causando sofrimento sobre vítimas inocentes.


O papa Francisco mencionou na encíclica sobre evangelização, a situação dos cristãos que “parecem ter escolhido viver uma Quaresma sem Páscoa”. Referia-se às pessoas que “se vergam à tristeza por causa das graves dificuldades que têm que suportar” e não conseguem descobrir a alegria na fé. Culpa da própria Igreja - o papa chega a reconhecer - que se especializou mais em condenar e em recriminar todos os prazeres, do que anunciar a alegria de um Cristo ressuscitado.


Durante séculos preferiu assustar as pessoas com o medo do inferno do que anunciar o paraíso. Até artisticamente, existem muito mais imagens do Crucificado do que do Ressuscitado. É mais dramática a figura de Jesus morto na cruz do que a imagem do cidadão-pregador. Hegel tinha uma tese sobre o Deus humano. O homem é que é divino. Esta inversão ele chamava de “um processo vital único”. Tudo flui. Aqui, choramos o emprego perdido, mas com um olho no preço do ovo e o outro no do bacalhau, símbolos mais fortes da Páscoa brasileira.


Ouvi o padre dizer que a nossa grande e mais importante missão como pais é educar os nossos filhos na fé. É difícil. Deve exigir mais dedicação do que prepará-los para o vestibular. Educar implica em dar o exemplo, ter firmeza, muito amor, estabelecer regras. E a lista de propósitos não tem fim: é preciso que nossos filhos sejam honestos e corajosos, trabalhadores e responsáveis, generosos e íntegros; que não tenham privações, que sejam cultos, viajados e que dominem mais de uma língua. Que consigam conciliar tudo isto sendo ao mesmo tempo competitivos e ambiciosos.


Tem mais: que saibam comer à mesa. E o meu bom amigo padre ainda me diz: esqueça, o que interessa é a fé. O que é mesmo ressurreição? Questionam os netos. Por que não se come carne na sexta-feira? Se Jesus é Deus porque não deu uns tapas no Pilatos e pôs os romanos para correr? Acompanhei minha mãe durante muitos anos nas Novenas e à Via-Sacra. Agora, entre a Via-Sacra e a novela, não há mãe que resista. Tudo flui. Para o bem ou para o mal.


O autor é jornalista e articulista do JC

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