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Páscoa da tolerância prega respeito com a divergência

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 4 min

A leitura religiosa da Páscoa, que celebra seu ápice neste domingo, também deve servir ao exercício da autocrítica do cidadão para a prática da tolerância e penitência em relação aos “pecados sociais”, especialmente em tempos de crise, onde a exacerbação de ódio e raiva extrapolam os limites da racionalidade. A iniciativa pode ser apreendida a partir do mistério da Semana Santa, por meio das simbologias da paixão, morte e ressurreição de Cristo, analisam católicos.

O pároco da Catedral de Bauru, situada na praça Rui Barbosa, Marcos Pavan, ratifica que a celebração da ressurreição é a oportunidade para a meditação de cada um no sentido de que estejamos atentos aos sinais do cenário de dificuldades enfrentadas na esfera política, social e econômica do País, mas com a compreensão de que só é possível exercitar a consciência pela aceitação da divergência, levando-se em conta o que pensa o outro, ainda que isso não seja o que eu penso.

Nessa trilha, não há nenhuma contradição em emprestar as simbologias da religiosidade para a sociologia do comportamento humano, mesmo na política, explica.

Considerações

“Nas instâncias de poder o que há é uma exacerbação da disputa, a falta de tolerância com o que o outro pensa, transformando o contrário em inimigo e isso é muito ruim. E isso já contamina as ruas. A Páscoa convida para o exercício da tolerância, da consciência política e, claro, também da discussão em torno de melhores indicadores sociais, como o saneamento que é a bandeira principal da Campanha da Fraternidade”, lembra o pároco. Marcos Pavan reflete sobre o espírito da aceitação.

“Há dificuldade das pessoas em aceitar a posição do outro. Se o cristão não leva como sua bandeira o princípio de que estamos em uma sociedade livre, democrática, ainda que com suas imperfeições, ele não está praticando na essência a mensagem da Páscoa. Que a Páscoa, então, leve cada um a meditar sobre a misericórdia. A quaresma é um período de penitência como preparação para a compreensão e vivência da ressureição. O ideal é que todos vivenciassem isso desde o início. Mas se não o fizeram, que se aproximem do outro e busquem a paz pelo diálogo. Isso é essencial em uma sociedade extremamente materialista em que vivemos”, conclui.

Mais equilíbrio

O convite de parada e reflexão que este tempo litúrgico propõe possibilita a quem é religioso avaliar melhor a sua conduta no meio das adversidades da vida. Da mesma forma, o não religioso poderia aproveitar esta didática para melhor avaliar a tempestade de informações e contradições que vivencia neste período de crise, sugere o professor de filosofia Fausi Santos.

“A maioria das pessoas está agindo impulsivamente, movida pelas paixões, sem realizar este exercício de avaliar a informação (tese), criar uma contra argumentação (antítese) e chegar a uma opinião coerente e fundamentada (síntese). A tolerância em relação ao que o outro pensa é um elemento essencial nessa convulsão social a que estamos expostos. As pessoas precisam refletir sobre a forma como estão lidando com os conflitos e a opinião do outro, senão não saímos, enquanto sociedade, do olho do furacão”, sugere o professor.

É como se o ápice da Páscoa, neste domingo, renovasse o convite social para que cada indivíduo seja chamado a pensar sobre sua realidade e seu comportamento, pensar sobre o que está acontecendo conosco. “Não há momento de reflexão nesse bombardeio de versões e ataques e o cidadão está no meio do fogo da convulsão social. Há inclusive dolo no uso do ambiente da crise, com a criação de mentiras, sobretudo nas redes sociais. A didática da Páscoa é uma oportunidade de percorrer esse caminho de reflexão. A Páscoa, aliás, nos convida a vivenciar isso, seja pela tolerância, seja pela penitência”, concebe Fausi. Mas, pra tanto, é preciso expurgar a cultura do julgamento pessoal e das ações a partir do próprio umbigo e afagar a divergência.

Trilha do renascimento

O caminho percorrido pela Páscoa, até este domingo de celebração da ressureição, oferece a “trilha do renascimento”, para que cada um promova a tolerância para a distensão da agitação social e, também, da distinção entre opinião e julgamento, raiva e ódio.

Nesse contexto, o professor de filosofia Fausi Santos sugere que, independentemente da opção religiosa de cada um, a proposta dos 40 dias de autoanálise e atitudes de penitência da Quaresma tem como objetivo levar a pessoa a um amadurecimento moral e social, que deve culminar em mudança de vida que se reflete em suas atitudes no cotidiano.

Daí o significado da Páscoa, a passagem de uma condição de vida inferior para uma nova situação existencial marcada por novas condutas. Os elementos da Páscoa trazem a oportunidade da sociedade buscar o “renascimento” para a convivência com o diferente, e com a opção divergente do outro, no meio dos conflitos sociais, políticos ou não, afirma.

Para tanto, Santos correlaciona o tripé que dá sustentação ao período pascal, cujo processo cristão se ritualiza da quaresma à ressureição, neste domingo. “Paixão, morte e ressureição da Páscoa trazem significados de preparação, penitência e vivência no caminho do renascimento tal qual a ordem dialética, onde tese, antítese e síntese são etapas que buscam, ao final, a mudança e o renascimento”, pondera.

Serviço

As missas deste domingo de Páscoa na Catedral serão celebradas às 7h30, 10h com a cerimônia realizada pelo bispo e 19h. A Catedral fica na Praça Rui Barbosa. Nas demais paróquias, as missas serão nos horários tradicionais. Informações por meio do endereço eletrônico https://www.bispadobauru.org.br/

 

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