Articulistas

Fisiologismo, a velha praga

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

Enquanto a presidente Dilma insiste no discurso vazio de que o processo do seu impedimento é “golpe”, o companheiro Lula trabalha na feira vendendo a xepa. O que sobrou de ministério, de cerca de 600 cargos de segundo e terceiro escalões e de mais de R$ 1,8 bilhões catados pelo ministro da Fazenda para liberar emendas ao Orçamento da União, de deputados e senadores. Feita a contagem, ainda faltam 40 votos para livrar Dilma do pelourinho.


Todos os nanicos estão sendo chamados ao hotel onde Lula instalou o seu quartel general. Até o recentíssimo Partido da Mulher Brasileira recebeu promessas de se reavivar a Secretaria de Política para as Mulheres. Um dos mais requisitados tem sido o Partido Progressista (PP), o que mais cresceu com a janela aberta ao troca-troca partidário. Está com 49 deputados, tem o Ministério da Integração Nacional e ainda lhe foi oferecido o Ministério da Saúde e a presidência da Caixa Econômica Federal.


Há ainda o rescaldo do racha no maior partido, o PMDB. Na verdade, são vários partidos em um só. O fisiologismo é tão grande que, em reunião-relâmpago, a maioria decidiu em três minutos desembarcar do governo, pondo fim a uma aliança de 13 anos. O fisiologismo e tão grande que seis dos sete ministros só vão pôr o pé fora do trem quando tiverem certeza de que chegou ao fim dos trilhos. São 79 deputados peemedebistas.


Se o Lula conseguir laçar uns 20, já sai no lucro. Nem precisarão comparecer ao plenário. Vão ganhar para ficar em casa. Atestado médico, somente para se justificarem perante os eleitores.  O argumento principal do ex-presidente Lula , que conhece bem o seu gado, é que no governo do PT, a mesa está posta. É sentar e comer. O vice-presidente Michel Temer, que faz o mesmo do lado de lado, só pode prometer o futuro, ainda incerto e que demandará algum tempo.  


A única coisa que o governo não vai conseguir segurar, é a aprovação do relatório da Comissão Especial, com parecer favorável ao impeachment, que deve acontecer no dia 11. O governo tem 25 votos de um total de 65, nessa fase. Curioso notar que 32 dos membros da Comissão Especial estão sendo investigados pela Operação lava Jato, cinco deles denunciados. Como se diz na Calábria, “tutti buona gente, ma tutti ladri”. Depois, o processo irá à plenário para ser votado pelos deputados. Considerando-se que a cada votante terá um minuto para justificar o seu voto, vamos ter uns três dias de votação.


Na sexta-feira (15) estará decidido se o impeachment vai para o Senado, onde a decisão será para valer. Do lado de fora do prédio do Congresso, umas 200 ou 300 mil pessoas vão acompanhar a votação, acampados na Esplanada. Serão membros da oposição e da situação, separados por barreiras da Polícia e do Exército. A possibilidade de conflitos sangrentos não está afastada. A Igreja tem feito ponderações em favor do diálogo sem exacerbações. Até o presidente do Senado Renan Calheiros (PMDB) passou a fazer um discurso conciliatório. Este, não é contra e nem a favor do governo.


E como é que fica a nação diante de tão tenebrosas transações? O velho fisiologismo fez parte do discurso forte do PT, no passado, quando pregava a moralização e a extinção do que chamou de “praga do sistema político brasileiro”. Fisiologismo porque, no corpo humano é tão natural como a respiração, a digestão e a excreção. Desde que virou governo, o PT resolveu mudar o nome do fisiologismo para o de “repactuação”, ou “negociação política”.

     

A gente não sabe quem é pior: se aqueles que se rebaixam para salvar a permanência no poder, ou se aqueles que colocam a sua lealdade à venda. O eleitorado tem que ficar atento aos lances de todas essas negociatas e fiscalizar a atuação dos seus representantes. Chegou a hora de cobrar decência de quem você confiou o seu voto. Anotar no caderninho o nome daqueles em quem não se deve votar nas próximas eleições, “nem que a vaca tussa”. Depende de nós passar o Brasil a limpo.


O autor é jornalista e articulista do JC  

Comentários

Comentários