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'As moedas, ninguém as viu'

Sinuhe D. Preto
| Tempo de leitura: 3 min

A Gramática Normativa da Língua Portuguesa indica, impõe nomes e nomenclaturas que assustam até os seguidores de Jogos Mortais. Um deles é o Objeto Direto Pleonástico... Que palavrão, não? Trata-se da colocação de um pronome pessoal oblíquo átono que retoma o objeto direto já citado, com a intenção de ser enfático sem ser redundante! É o que ocorre nesta frase do Bruxo de Cosme Velho, Machado de Assis: “As moedas, ninguém as viu.” E é a partir de mestre Machado que quero fugir de objetos para falar de sujeitos, aqueles humanoides que ficam nas esquinas das ruas muitas vezes nuas, nem sempre suas, sempre em sóis e luas!


Thiago Lucali, quiçá Iriane Leme, ou João Biano, sabiam das esquinas, das Esquinas de Djavan, que em discurso direto como objeto como sujeito entoa: “Só eu sei as esquinas por que passei...” Quanto léxico cabe neste disléxico Esquinas, a metáfora sabe como sem ter como a metonímia quer denotar o conotativo! Creio que a Esquina é algo de canto, espaço de quem não tem espaço, que está deslocado, que está na bandeirinha e de escanteio e que tem que todo dia bater escanteio e cabecear para o gol!

 

Mas e as esquinas por que passamos, o que nos apresenta? Seres maltrapilhos, gente a quem chamam indigente, sem saber se é ou não divergente ou convergente, coisa de inteligente! A madame para o carro com o vidro fechado e o coração não aberto a diálogos, a não ser que seja para em um grito, vociferar: “Vai pedir para Dilma!”.

 

A menina que nunca debutou, não conhece sabonetes, nem perfumes, nem batons, nem lingeries, nem Mozart, nem Freud, nem a Dilma, estende a mão próxima ao vidro que não desce, parece o dólar, a mão em forma de cuia, não recebe nada , como os retirantes de Vidas Secas, de Graciliano Ramos, ela olha para o semáforo e psicocracka Elis de Belchior: “O sinal está fechado para nós que somos jovens...” E contraria o cantor do bigode espesso que pegou na mão de alguém com medo de avião: “Sonhar é melhor que viver...” e identifica-se com o substantivo abstrato já previsto e mencionado por Belchior: “Por isso cuidado, meu bem, há perigo na esquina”  e o ser efebo pensa e repensa se é a Esquina ou o Perigo! E pesadela: “Mas também sei que qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa”.

 

Em outras esquinas, bixos e bixetes também clamam por moedas, estão maltrapilhos também, estão pintados, pichados, grafitados, não foram ao Happy Holli, Festival das Cores, apenas e a duras penas passaram no vestibular, sim, ainda há vagas, esses Walking Dead arcoirizados enfrentaram cotas, saborearam cotas, amaldiçoaram as cotas, muitos são filhos de pais de altas cotas, que se baixarem, será culpa da Dilma, esses bixos não tão escrotos como os outros bichos de outras esquinas, querem as moedas, sempre dinheiro, sempre dinheiro, seus veteranos lhes impuseram essa árdua missão: implorar óbolos nas esquinas, vintém por vintém de quem tem e não dá para quem não tem! No entanto, esses bixos são inteligentes, são pessoas de futuro que não sabem os que da outra esquina têm passado no presente!


Na Selva de Pedra, sem Tarcísio Meira e Francisco Cuoco, os bixos e os bichos se antitetizam,  margeiam esquinas, que a similaridade e a semiótica definirão o que é esquina, tudo por culpa ou por graças da Dilma! Entre dias e noites, claros e escuros, o ser dos cantos sem encantos e a quatro cantos  espelha-se: “Só, eu sei, Só, eu sei as esquinas por que passei e passarei porque sabe lá o que é não ter e ter que ter pra dar ou ter que ser ser e ter sem ser!”


O autor é professor (parado na esquina esperando o sinal!)

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