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Brazil of cards

Luís Victorelli
| Tempo de leitura: 2 min

Um dos grandes segredos para se contar uma boa história é torná-la crível, por mais fantasiosa que seja. Acreditar que ratos se transmutam em majestosos cavalos capazes de conduzir uma abóbora transformada em carruagem não é tarefa fácil para nossos neurônios processarem, mas com uma varinha mágica para justificar, uauu! Nossa racionalidade é acalmada e o conto perpassa gerações.


Agora, se você quiser saber de onde surgiram as fadas, aí será preciso criar uma outra magia, ainda mais poderosa, e por aí vai... As histórias, sejam elas da carochinha, do Gênesis ou da biografia de Steve Jobs, sempre passam pela fantasia. O importante é dar um motivo à nossa razão para justificar o desejo da emoção.


Mas por que as histórias nos encantam tanto? Porque somos seres essencialmente políticos. O mundo em que vivemos é político, na Síria, no Japão ou no Xingu. Numa autocracia, de armas ou divindades, ou numa democracia, de fachada ou de liberdades, a ação política estará ali, presente, traduzida com a aceitação, o medo ou a revolta.


Não somos e jamais seremos neutros numa vida em sociedade. Nem um eremita estaria isento, seus pensamentos, dúvidas e decisões travariam conflitos internos de dar inveja a Napoleão. Assim, nada mais natural que o ato de expressar seja uma necessidade humana das mais importantes. E nada melhor que uma boa história para encantar, libertar ou controlar pessoas e povos.


A questão é que, nos dias de hoje, cada vez menos gente está disposta a acreditar em cinderelas resgatadas por emplumados e apaixonados príncipes. Então, em vez de dourá-los nas mais requintadas vestes, escancara-se a nudez real. A série americana “House of Cards”, baseada numa produção da britânica BBC, de 1990, faz isso magistralmente. E mostra, com um voyeurismo entorpecente pelas entranhas do poder, que não é apenas o rei que está nu.


O segredo do sucesso desta produção da Netflix nos Estados Unidos, no Brasil e em vários países onde é exibida não é nenhuma varinha mágica. É a competente qualidade em mostrar que o ser humano, aquele ser político em essência, faz política da pior qualidade. Só uma coisa faria este público desviar os olhos das manobras, golpes, traições, corrupção e manipulações que a busca doentia pelo poder proporciona: uma versão x-rated do seriado. E com personagens reais, melhor ainda.


O jornalista Thomas Fischerman, correspondente do jornal alemão Die Zeit, sabe o quanto um reality show, em tempo real, é bem mais emocionante que uma obra ficcional, por melhor produzida que seja. Mudem de canal! As intrigas políticas e investigações no Brasil estão melhores que a série americana. E para os seus leitores, questiona: “Por estes dias, é difícil entender por que ainda há pessoas que se interessam por ‘House of Cards’. Elas não acompanham as notícias da política brasileira?”. O casal Underwood agradece!


O autor é jornalista

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