Nacional

Ex-detento usa marketing digital para alavancar comércio na Rocinha


| Tempo de leitura: 3 min

Aos 41 anos de idade, Jorge Luis Linhares traçou uma meta profissional e, ao mesmo tempo, pessoal: levar marketing digital aos comerciantes da Rocinha, onde nasceu, na zona sul do Rio de Janeiro.

“Antigamente, o número de pessoas com computadores por aqui era muito baixo, mas hoje não. É praticamente impossível encontrar alguém que não tenha ao menos acesso indireto, por meio dos filhos, por exemplo, à internet. Não posso ignorar essa ferramenta de venda na comunidade. Cada vez mais, as pessoas vão comprar o que precisam pela internet”, explica, sem disfarçar a empolgação. “Sinto que o negócio vai dar certo”.

Tanta obstinação tem um motivo: uma história de vida marcada por dificuldades e superação. Ainda jovem, Jorge fez o mesmo caminho de muitos meninos que crescem em comunidades onde o braço do crime se mostra presente. Furtou, roubou e se envolveu com o tráfico de drogas. Foi preso por seis vezes, viveu seus piores dias, mas encontrou no filho a motivação para mudar de rumo.  

“Saí da prisão pela última vez em 1999, quando meu menino tinha somente um mês de vida. Jurei nunca mais cometer qualquer tipo de crime, mas no começo, eu admito, foi difícil. Trabalhei em uma lanchonete e tudo ia bem, até descobrirem que eu tinha passagem no presídio. Fui demitido na hora e fiquei literalmente sem levar comida para casa”, lembra Jorge.

Sem emprego e com as portas fechadas para recomeçar, ele buscou ajuda em uma rádio comunitária. Nesta época, descobriu sua verdadeira vocação: ser vendedor. “Minha função lá era vender propagandas para os comerciantes aqui, da região. Conheci muita gente e, em troca, ganhava uma cesta básica”.

O salto para o mundo do empreendedorismo aconteceu mesmo em 2004. Na busca por clientes, ele soube que uma grande rede varejista de Ipanema buscava na Rocinha seus consumidores. Com ajuda de um amigo, que possuía carteira de motorista e veículo próprio, um corsa weekend modelo 2000, financiou um equipamento de som, comprado graças ao adiantamento da verba para divulgar os eletrodomésticos desta mesma rede na comunidade. Estava montado o primeiro carro de som da vida de Jorge.

A estratégia deu certo. Pouco a pouco, os clientes foram chegando, entre eles, pequenos comerciantes, passando por grandes redes e até mesmo universidades. Em quase 12 anos de atividade, mais de 500 foram atendidos.

“O negócio não parou por aí. Hoje tenho uma equipe de oito pessoas que trabalha comigo. Temos o carro de som, equipado com telas de led para divulgação do comerciante, e também a moto som, que leva a mensagem ainda mais longe”, explica o empresário.

Mas agora Jorge deu um passo ainda mais ousado. Na avaliação dele, agora com a inclusão das ferramentas do marketing digital, ele conseguirá completar o ciclo necessário para que seus clientes vendam cada vez mais.

“O pequeno negócio precisa de publicidade para sobreviver. Não vamos vender só marketing digital. Criamos o combo rocinha, que é um pacote em que o cliente vai ter o anúncio de seu negócio no carro de som, na moto som, além das telas de led e, é claro, na internet”, salienta Linhares.  O combo acabou de ser colocado na praça, mas já tem tido boa aceitação entre os comerciantes locais. “Nem começamos de fato e já temos pacotes vendidos”, comemora. 

Para Caio Sigaki, um dos criadores da plataforma, iniciativas como a de Jorge são fundamentais para estimular o empreendedorismo no país.

 

 

Comentários

Comentários