“Posso ser considerado um cidadão comum. Procurei ao longo de minha vida seguir os ensinamentos de meus pais, e sempre procurei ter um comportamento correto. Meu pai me dizia: “Filho, seu maior patrimônio é seu nome, portanto, honre-o sempre”. Ao longo de meus 50 anos posso dizer que fiz de tudo um pouco. Comecei como ajudante geral e mesmo minha família fazendo grande esforço para que eu estudasse, concluí com muito custo o ensino fundamental, na época o primeiro grau. Mais tarde, depois de anos, voltei a estudar e conclui o antigo colegial, optando pela escola técnica, que me rendeu a profissão que exerço de técnico eletricista.
Constituí família e me manter no emprego nunca foi o problema, até ontem, infelizmente. Eu já tinha observado o movimento na empresa. O ano passado dispensaram praticamente 30% do quadro de profissionais e agora o facão pegou mais 20% e infelizmente eu estava na lista. Uma sensação horrível, ser demitido. O chão cai. Logo agora que com muito esforço eu e minha esposa estávamos conseguindo que o Júnior, nosso filho mais velho de 17 anos (temos um casal, a menina está com 15 anos), somente estudasse, buscando um futuro melhor.
Eu tinha uma ideia da tal da crise que tantos falam, mas não imaginei que pudesse me atingir. Quando chego em casa ligo a TV (também gosto de ouvir rádio), ouço que o atual governo enfrenta problemas sérios. Falam de corrupção, desvios, agora falam em golpe, que os opositores ao atual governo são oportunistas, mas não consigo entender direito o que está acontecendo, pois tenho a lembrança de um ano e pouco atrás, nas eleições para a presidência, que a presidente reeleita disse que tudo estava sob controle, que a prosperidade continuaria. Confesso que acreditei cegamente.
Eu acreditei primeiramente porque conquistei minha casa naquele projeto Minha Casa Minha Vida. Pago uma parcela que até então cabia em meu bolso. Também, confiando no governo, comprei móveis utilizando o cartão de compras a mim oferecido, e mobiliei minha casa. Também aceitei aquele cartão de crédito de um banco do governo, afinal, falaram que os juros estavam baixos, e eu que demorei quase uma vida inteira para poder dar um pouco de coisas boas a minha família, não pensei duas vezes.
Agora estou perdido. Pergunto-me: será que mentiram para mim? Me enganaram? Sabe de uma coisa? Tenho a sensação horrível que vou perder tudo que tenho. Antes, mesmo com dificuldades, morando com meus pais, eu não tinha dívidas. Meu filho me ajudava na renda da casa e agora vou ter que falar com ele este tempo voltará. Minha esposa, que já fazia alguns trabalhos para fora, terá que me ajudar mais. O Júnior terá que estudar a noite e penso em colocar a minha filha como menor aprendiz. Tenho que aumentar a renda da casa e, sem emprego, não sei o que me espera.
Pelo que ouço e vejo falam que muitos brasileiros estão na mesma situação que eu. Também vejo na TV manifestações em favor e contra o atual governo, mas não vi nada falando em voltar a gerar empregos. Será que se esqueceram de nós? Irão se lembrar de nós somente nas próximas eleições? Não sei, mas estou com medo. Sinto que não ter emprego é não projetar um futuro melhor para mim e para minha família e o que é pior, não sei como explicar aos meus filhos que teremos que dar um passo atrás, provavelmente morar com meus pais novamente, enfim, dizer que estamos voltando pior do que chegamos aqui.
Não sei o problema é com a tal de esquerda, da direita, do centro, se são as pedaladas, se é golpe ou tudo dentro da lei, só sei que ninguém, mas ninguém tem falado o que eu e outros cidadãos comuns queremos ouvir: quando isso tudo vai passar? Quando eu poderei reunir a família para dar uma notícia boa? O que falo para o Júnior? O que falo para minha princesa? Mas como meu pai me disse: meu maior patrimônio é meu nome, e farei de tudo para honrá-lo, mas uma coisa é certa: nunca mais acreditarei em promessas e vou me esforçar cada vez mais para entender o que acontece neste país e não ser presa fácil de gente que demonstra todos os dias o que vale mesmo é estar no poder, custe o que custar, até meu emprego.
Desculpe o desabafo, mas tenho que parar por aqui, pois terei que contar a minha família que perdi o emprego e teremos tempos difíceis pela frente.” Este relato, criado por mim, poderia ser de qualquer um, mas infelizmente recai sobre os mais pobres, aqueles que insistem dizer que estão protegendo. Algo diferente tem que ser feito, urgentemente.
O autor é economista e articulista do JC