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O PT e outros demônios (uma réplica)

Carlos D?Incao
| Tempo de leitura: 3 min


Começo essas linhas retribuindo o fraternal abraço a mim endereçado pelo senhor Uriel de Almeida. Seu artigo, antes de qualquer coisa, demonstra grandeza ímpar ao convidar - através do respeito e da civilidade - a um debate de alto nível e com teor genuinamente republicano, em suma, tudo aquilo que necessitamos em nosso momento atual.

Suas ponderações se iniciam com uma preocupação sobre os termos de que me valho para o radicalismo político em voga, o qual denominei de “hordas” anti-Dilma e anti-PT. De fato, causa-me enorme preocupação a atual conjuntura política. No momento em que escrevo esse artigo, infelizmente tenho inúmeras notícias de depredações, violências sobre sedes e militantes do PT e toda uma atmosfera que culminaram nos últimos dias no assassinato de membros do MST e na recusa de um médico em atender uma criança devido à orientação política de sua mãe. Mais por excesso de zelo do que por tentar criar um clima de alarde, utilizei esse termo. Espero, sinceramente, estar errado e que não entremos em um estado de barbárie social.

No que tange a outros aspectos levantados em seu artigo, adianto-me que ele entra muito menos em contradição com minha linha de pensamento - sobre o atual governo federal - do que se possa imaginar.

Sempre fui crítico às grandes linhas conduzidas pelos últimos governos Lula e Dilma. Creio que  esses governos apostaram muito alto em uma contínua valorização das commodities, o que permitiu de um lado a continuidade de uma política-econômica à reboque das grandes potências, ao mesmo tempo que ocasionou um flagrante processo de desindustrialização do país. Porém, essa política - deve-se apontar - não foi uma invenção petista. Ao contrário, trata-se da continuidade de uma velha tendência econômica que praticamente foi a linha mestra de todo o período republicano brasileiro.

O PT, quando entrou no poder, adotou uma política conciliatória e junto com outros setores tradicionais tocou uma política social um pouco mais distributiva e apostou na diversidade de capitais (aí entra o papel da China) para manter mais sólida e estável uma política dependente, porém mais ampliada. Outros tantos aspectos apontados - tanto críticos quanto elogiosos - sinto-me de certa forma cerceado pelos próprios limites jornalísticos que aqui disponho. Apenas gostaria de enfatizar dois elementos que, no meu modo de entender, devam ser frisados:

1 - Que lutemos para que haja um debate amplo, honesto e democrático para a construção de um novo país. Não restam dúvidas de que esse novo país deva passar por uma nova constituinte. Que se obedeça as regras atuais, os calendários eleitorais e que se evite saídas extravagantes,  preservando-se, assim, o direito soberano do povo em escolher um novo presidente disposto a realizar as reformas que todos almejam.

2 - Que não deixemos o momento de crise atual levar à falácia de que a esquerda não possui uma alternativa para o Brasil e que por si só é sinônimo de corrupção e degeneração. Mais uma vez, essa lógica é uma farsa. A corrupção existe em nosso país desde tempos imemoriais e se o PT errou, foi por ter acreditado que poderia se conciliar com os mesmos setores que hoje abandonam seu governo.

Mas veja, senhor Uriel, tão logo finalizo essa réplica - com o mais elevado sentimento de respeito e urbanidade a sua pessoa -, não posso deixar de notar um outro artigo que vai na contramão de tudo aquilo que queremos construir. Um artigo de um professor da Unesp que tenta, de forma precária e rudimentar, pavimentar uma rota esburacada - maquiada com uma pseudo e pueril erudição filosófica - que tão somente se dedica a chegar a puras difamações pessoais.

Por nada conhecer de minha história, da história de nossa própria nação e, diga-se de passagem, de Descartes, seu artigo apenas reúne a virtude de cair no ridículo das ofensas vazias. Essas bifurcações existem. Infelizmente. E vemos que o país que desejamos não é o mesmo país que tantos outros desejam.

O autor é professor de história/USP e diretor

do Instituto de Ensino D’Incao

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