Nunca o velho e o novo conviveram tanto como nos tempos que correm. E como correm. Mas o fato de ter, na ponta dos dedos, as maravilhas infinitas e imediatas do mundo digital não significa abdicar do sabor e do charme das coisas “antigas”. Talvez o melhor exemplo disso seja o disco de vinil. Ele, que teve a morte apressadamente decretada com o surgimento do CD, hoje é mais do que artigo de colecionador. O fascínio pelo bolachão só aumenta e, assim, os saudosistas de sempre agora dividem espaço com jovens curiosos e bem informados.
O disco de vinil é a prova “viva” de que, de fato, estamos tendo a rara oportunidade de experimentar atrativos de mundos paralelos em tempo real (ou digital, como queiram). Uma tese: as inegáveis facilidades digitais são imbatíveis para se atingir um fim, mas esse dinamismo desprezou o prazer do “meio do caminho”, do “durante”, daquilo que ainda será conquistado. É isso que o disco representa: não o destino final, mas a paisagem até se chegar nele. Enquanto que, com celular ou computador, em alguns cliques já se tem o objeto da pesquisa, o caminho percorrido até o disco girar é bem mais demorado (e prazeroso).
É preciso gastar sola de sapato em sebos ou feiras até encontrar o disco que se quer; seguir na pesquisa ao perceber que aquele encontrado está riscado demais e outro exemplar em melhor estado seria bem-vindo; ao encontrar o disco, pechinchar; ao levá-lo para casa ainda será necessário esperar a encomenda de plásticos chegar para guardá-lo adequadamente (“plásticos”, no plural, já que são interno e externo).
Fora que, ao mesmo, você terá que também ter rodado muito para adquirir um toca discos. Que muitas vezes, usado que é, vem sem a agulha (e aí é outra maratona atrás da pontinha mágica que dá vida ao som). Tem que limpar os discos, armazenar corretamente, proteger dos solavancos do tempo e da temperatura (tudo o que eu não faço direito).
Mas o melhor são os passos até o aparelho com o disco na mão. Aqueles segundos de silêncio que logo serão quebrados assim que o disco for retirado da capa, e do plástico, e colocado no prato para ser dada a largada ao chiado inicial que virará música literalmente escolhida a dedo.
O mundo analógico tem mais graça porque não matou a expectativa. Pelo contrário, ajuda a alimentá-la. É um mundo interessante porque, nele, não basta apenas digitar um nome, dar “enter” e já atingir o imediato objetivo. Como se sabe, preliminares são parte fundamental do prazer. E, nisso, o mundo analógico é bem mais certeiro. Não tem paralelo.
O autor é editor executivo do JC