A solidão da mulher negra inflama todos os dias, sendo necessário promovermos movimentos afirmativos que fortaleçam a nossa identidade. Reunindo uma dezena de mulheres negras de todas as gerações certamente os históricos serão semelhantes, porque a nossa sociedade reproduz os valores e condições em que a mulher negra deve permanecer. A princesa Isabel determinou a abolição e esqueceu-se de realizar uma planificação para acolher os negros, porque você há de concordar que os negros foram trazidos da África em péssimas condições, escravizados, torturados e mortos e sofreram de várias maneiras enriquecendo os senhores do engenho. Após a liberdade, o Estado não teve nenhum ato para reorganizar a sociedade, o correto seria que o Estado acolhesse esta população com moradias dignas, saúde, educação, profissão.
Já haviam lhe roubado todo tipo de sorte, o mínimo seria esta reparação, mas como isto não ocorreu carregamos esta herança que sobra pra todos. Neste caso, a solidão da mulher negra atinge em vários aspectos, desde a infância à falta de representatividade nos brinquedos, contos de fadas (todas as personagens não negras possuem final feliz) e claramente a personagem principal não é negra. Na escola, a verdadeira história do negro no Brasil é excluída, a luta e vida de Zumbi, Luisa Mahin, Dandara, Carolina Mari de Jesus, André Rebouças, Cruz e Souza, Aqualtune, Mãe Menininha dos Gantois, Tereza da Benguela, entre vários heróis e heroínas que lutaram por justiça, igualdade e dignidade, não são informadas, causando um abismo entre a identidade do negro e a sociedade.
A solidão é implacável no orfanato à espera de família que aceitam as doações, é injusta quando a maioria das meninas abandonadas pelo pai são negras, quantos hospitais públicos as mulheres negras gestantes passam pelo processo da maternidade abandonadas. Quantas mulheres deixam de acreditar no amor por conta da sociedade estabelecer pra serve intimamente a mulher negra e como deve ser tratada. Neste caso, é interessante lembrar o quanto a literatura reforça atitudes machistas e racistas, incentivando a enxergarem a mulher negra como objeto/amoroso, não tendo o cuidado de amá-la e muito menos valoriza-la. Isto não vai muito longe, no passado a mulher negra era violentada pelos senhores, reduzidas a objeto sexual e depois eram usadas como reprodutoras de maneira fria, automática e cruel. Se isto não bastasse, foi rotulada em sua sexualidade como mulher desregrada, indomável e animalizada. Em algumas obras da literatura brasileira reproduziram o conceito de que mulher branca é pra casar, mulher mulata para fornicar e mulher preta para cozinhar.
Conseguimos a liberdade, mas as correntes invisíveis do machismo e do racismo permanecem até os dias de hoje. Faço o desafio, vá pesquisar e veja como a imagem da mulher negra era vista pelos escritores. Sugerem a ausência do casamento na vida da mulher negra, no caso do Jorge Amado a personagem Gabriela é incapaz de respeitar as normas de um casamento; Monteiro Lobato tinha a tia Anastácia solteirona, negra e cozinheira. No livro O Cortiço, de Aluísio de Azevedo, a personagem negra Rita Baiana seduz o português Jerônimo que tem uma vida exemplar até conhecê-la, a outra personagem negra é Bertoleza, que vive nas condições de amante sendo excluída por não fazer parte da ascensão social e matrimonial. Se suicida deixando o caminho livre para João Romão. Nestes exemplos observa-se que os escritores sempre colocam as condições das mulheres negras como sensuais, amantes, cozinheiras, resistente a trabalhos, enfim, rotulam o conceito da mulher negra sugerindo pra qual papel elas servem.
Precisamos acabar com esta invisibilidade, a mulher negra não é vista como musa, heroína ou romântica, é uma grande passo você refletir e perceber que os exemplos citados permanecem no cotidiano. Reflita: esta atitude é um ponto de partida para novas realidades, novas histórias, contos e representatividade.