Tribuna do Leitor

?A Mulher do Padre?

Prof. Sinuhe Daniel Preto (perguntando-se se só as mães são felizes)
| Tempo de leitura: 3 min

No início do ano 2002, uma marca chamou-me a atenção em um loja de um shopping de Campinas, a grife tinha o criativo e provocativo nome de ‘A Mulher do Padre’ ou AMP. Comprei uma camisa dessa marca e sempre que a usava pessoas me perguntavam o porquê do nome, respondia que era, no mínimo, surreal, pois padres não se casam, a não ser com a Igreja!


Bem antes do início do século XX, já havia lido na escola, sem entender muito bem uma das maiores obras literárias de Machado de Assis, Dom Casmurro, léxicos, como sempre, desafiadores e ardilosos do Bruxo de Cosme Velho atormentavam e instigam até hoje a mente dos leitores desse romance, é inevitável a conclusão que procura inclusão ou exclusão: ‘Capitu traiu ou não?’.


Poderia Capitolina ser A Mulher do Padre? Talvez! A obra-prima de Machado de Assis para muitos  evidencia a promessa de uma mãe, dona Glória, que se seu segundo filho havia perdido o primeiro,  fosse “varão” iria ser padre! No entanto, Bentinho, o filho, o Casmurro, foi para o seminário contra sua vontade de homem apaixonado por Capitu. Tempos depois, o amigo Escobar convence a mãe do protagonista de deixá-lo viver sua vida, seu amor e mandar ao clero e suas funções um escravo no lugar do filho! Leia o livro e saiba o resto, pois você nunca mais será o mesmo diante dos mesmos!


Agora, como seria um padre que é moderno, teólogo, torcedor do São Paulo, tímido sendo falante, a volta sem revolta, com um novo discurso no velho percurso? Esse padre existe, foi para o seminário, não sei se por promessa, orgulha-se de ser vigário, apóstolo, filho do Senhor, atende e acende e ascende pelo nome de Ricci, Padre Ricci!


Na última Quinta-feira Santa, houve mais uma missa na Igreja São Cristóvão e lá estavam, Padre Ricci, seus seguidores, suas pastorais, seus amigos, seus fãs, seus pupilos, seus irmãos e dona Carmen Vendramine, sua mãe, uma senhora simpática que me chamava a atenção quando cumprimentava Isvao e Silvana! Já escrevi certa vez que a missa do Padre Ricci é ambígua ou plurissignificativa, é Missão que vale o aumentativo e a função de conjunção que esse cristão tem com sua comunidade!


Reflito e até aflito descubro por que dona Carmen é mãe do Padre Ricci, Carmen significa “Verso”, “Canção”, “Poesia’, “Vinha de Deus”, “Pensamento do espírito divino”, ou seja, Carmen nasceu para ser mãe de Ricci, do Padre Ricci, e Ricci nasceu para ser filho de Carmen, é raro algo tão sintonia, concerto, similar e contíguo!


Entretanto, naquela quinta Santa, dona Carmen, comungou e, posteriormente, recebeu a extrema unção de seu filho. Penso que ao rezar, Padre Ricci balbuciou: “Em nome do Pai, do filho, do Espírito Santo, A MÃE!”. Dona Carmen Vendramine nos deixou onde sempre esteve, na Igreja São Cristóvão, ela quis orar mais uma vez, começar antes de partir, evidenciar a força da fé!


Na missa de sétimo dia de dona Carmen, ao falar dela à Igreja lotada que procurava por ela, a Mulher do Padre, Padre Ricci emocionou a todos, eu, que não tive pai, mas tive duas mães, lembrei-me delas, lembrei-me de suas mãos que afagavam-me e castigavam-me, lembrei dos ensinamentos e arrependimentos! Ao contrário de parecer triste, Padre Ricci celebrou a missa com alegria, com orgulho e saudade, com o corpo e com o espírito, falou da morte como irmã e da vida como mãe, fez todos serem filhos e mães, falou de família como não se vê mais, legou-nos a esperança!


E, ao final da missa, Padre Ricci revelou-nos o segredo aprendido com dona Carmen Vendramine, A Mulher do Padre: “Fica conosco, Senhor, pois já é tarde e a noite vem chegando”.

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