Regional

"Caixeiro-viajante" fotografa bares rurais da região

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 3 min

Fotos: Malavolta Jr.
Bar e empório rural no bairro Ribeirão Bonito, no município de Arealva, é bem conhecido na região
Bar rural no sítio Santo Antônio em Clavinote, município de Avaí

Ele passou parte de sua infância dentro de um bar na região de Garça. Aos 55 anos, Carlos Moreira é um “caixeiro-viajante” conforme se intitula. Vende miudezas para bares e vendas nas zonas urbana e rural. Entre uma visita e outra, ele saca o celular, bate fotos do comércio rural. Posta em sua página no Facebook e traz à tona histórias de muitas famílias que viveram e vivem do comércio de miudezas.

Há 30 anos na estrada com suas miudezas, Carlos Moreira conhece a região de Bauru como a palma de sua mão. Viaja toda semana para cidades das imediações distante até 200 quilômetros. Faz amigos e vende sua mercadoria. Ao contrário do que fazem muitos vendedores, ele também visita a zona rural. “Eu atendo todo o comércio. Onde tiver uma porta aberta eu entro e ofereço minhas mercadorias. Atendo bares, secos e molhados, padaria, lojas de 1,99 e armarinhos.”

A identificação com a área rural é uma recordação da infância de Moreira. “Até os 10 anos vivi no bar do meu avô, na região de Garça, mais precisamente no bairro de Itiratupã, próximo de Jafa. Fui criado entre as vitrines de guloseima e o vozerio do povo que frequentava o bar. Contadores de histórias e cancioneiros. Depois meu pai foi para cidade.”

Com muita emoção, Moreira lembra que as vitrines de doces o encantava. “Tinha os delicados que vinham de Marília. Geleia branca e colorida, paçoca, suspiros coloridos, maria-mole, pé de moleque. Eu abusava da bondade de meu avô e não recusava as guloseimas. Estava descobrindo o mundo. Essas imagens permeiam a minha mente até hoje como um período feliz.”

A clientela do bar em sua maioria eram homens que  trabalhavam na roça do café. “Trabalho duro, árduo, não havia máquinas para ajudar. Era no braço mesmo, trabalhavam o dia todo e no final da tarde eles iam para a venda tomar sua cachaça. Ou, buscar algum mantimento que faltava em casa, uma mistura para o jantar, como diziam. Os bares daquela época não vendiam só bebida, tinham secos e molhados.”

Na época nem se sonhava com a máquina de passar cartão de crédito ou débito. “Tudo era marcado na caderneta. Muitos compravam para pagar na colheita. Esse prazo podia demorar um ano. Mas os homens nunca deixavam de pagar, era falta de caráter. O sistema dava muito certo. Não tinha promissória e nada que obrigasse o comprador pagar. Era a palavra dele que valia,” conta Carlos Moreira.


Sonhava ser jornalista

Carlos Moreira sonhava ser jornalista, mas se enveredou para a venda. A chegada das redes sociais deram vazão a uma vontade enorme que tinha de fotografar. Com seu celular ele passou a fotografar as igrejas das regiões que visitava com sua mala de ‘caixeiro-viajante’. Ele montou uma página no Facebook e começou a expor suas fotos. “Um amigo sugeriu que eu fotografasse os bares e então comecei.”

Uma das primeiras fotos de bar que ele tirou foi no Cardoso, próximo de Arealva. “A história da família é muito parecida com a do meu avô. O bar está sendo dirigido pelo neto de quem construiu o prédio. Eu sai da venda e fiz umas fotos, postei no Face e muitas pessoas curtiram, elogiaram. Então passei a fotografar mais.”

O ‘caixeiro-viajante’ cobre uma área de cerca de 200 quilômetros de Bauru. “Em Pardinho tem a venda da Vivan. Antiquíssima, cheia de história. Em Piratininga, a da Rose e assim por diante. O bar de meu avô não existe mais. Tem um perto de Jafa que é da mesma época, tocado pelo Pedro Jordão.”

 

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