Política

Domingo: sai futebol, entra política

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 7 min

A finalização da sessão de aceitação, ou não, do processo de impeachment pela Câmara Federal contra a presidente Dilma Rousseff (PT), neste domingo, em Brasília (DF), com votação prevista para ter início por volta das 14 horas, muda a rotina de grande parte dos brasileiros em todo o País. O clima hoje é similar ao de uma final Copa do Mundo, com a diferença de que o assunto é muito mais sério. Diante da gravidade do momento histórico, todas as atenções estão voltadas para o palco central da disputa, na Capital Federal.

A pátria sem chuteiras (partidas de futebol foram canceladas hoje) terá neste domingo o povo concentrado em acompanhar o embate que vai definir o futuro do atual mandato presidencial no País.

Nas ruas, os semblantes colhidos do bauruense, até a véspera do processo de declaração de votos favoráveis e contrários à aceitação do processo de impedimento da presidenta, trouxeram traços de apreensão, frustração, tristeza para muitos, alegria para outro tanto, alívio, mas, também, sentimentos de “coração angustiado” diante de mais uma grave crise política que se alia à desagregação social e econômica.

Para uma parcela significativa de bauruenses, assim como no País, o esgarçamento da crise gera maior esgotamento emocional à medida da aproximação do ‘apito inicial’ do processo de votação hoje na capital federal.


AFLIÇÃO
O curioso é que mesmo entre alguns adversários do PT, entre os cidadãos comuns, foi possível obter a confissão de certa dor cidadã. Em outro norte, nas mídias sociais ou na rotina das obrigações diárias, o bauruense demonstrou, ainda, sentimento de desolação com a chegada do processo de votação do impeachment.

O detalhe é que, do ponto de vista do caminho ainda a ser percorrido em relação ao argumento mais combatido na crise – a corrupção – o episódio deste domingo é apenas inicial, ou seja, o de decidir pelo início do rito de possível afastamento ou não de Dilma Rousseff.

Depois viria o julgamento em si, mas no Senado. Lá é que será decidido se Dilma deve ou não se afastar do cargo por 180 dias, até ser julgada. Portanto, se a oposição não obtiver 342 votos favoráveis ao andamento do impeachment hoje na Câmara, entre os 513 deputados, a denúncia é arquivada. Essa percepção de que o rito está na fase preliminar não está clara para muitos.

Enquanto isso, nas redes sociais ficam latentes opiniões raivosas e com predominância de conteúdos contra o governo, embora a maior parte das manifestações colhidas pelo JC tenha como alvo majoritário a presidenta e o PT. Até o ex-presidente Lula foi “esquecido” nesta última semana. Por sinal, outros personagens que foram manchete no noticiário de indícios de envolvimento em corrupção estão, por ora, esquecidos ou em 2º plano.


Economia caseira

Outra observação central é que os favoráveis ao impeachment, no senso comum, passaram os últimos dias atacando muito mais as consequências econômicas enfrentadas pelas famílias, como o desemprego, e as de ordem moral e ética, em razão dos casos de corrupção elencados na Operação Lava Jato, do que os argumentos referentes à denúncia contra a presidenta: a abertura de créditos suplementares para despesas sem lei autorizativa no Orçamento da União e os não pagamentos de empréstimos feitos de bancos públicos pelo governo, as chamadas pedaladas fiscais.

Nas ruas ou na Internet, a maioria sequer inclui na argumentação as pedaladas. Já o tema corrupção lidera as citações, embora não integre a denúncia em votação na Câmara Federal. Outra parcela de cidadãos associa a corrupção ao discurso de que o atual governo paralisou a economia do País, gerando desemprego e perda do poder de compra. Seja qual for o resultado da votação, que transforma o Congresso Nacional em um Maracanã, resta dos sentimentos manifestados nas ruas boa dose de incerteza, mesmo entre parte dos que defendem o afastamento de Dilma. Não há segurança majoritária em torno de eventual governo do vice-presidente Michel Temer (PMDB). As observações de falas nos bares, cafés e fila de supermercado, sem contar a Internet, trazem ambiente de desconfiança, em parte. A aflição não termina hoje.


Em Brasília

Dois dos 513 deputados federais que vão votar o pedido de impeachment de Dilma confirmam o clima de apreensão, mas de vivência da democracia em Brasília.

Arnaldo Jardim (PPS), que se licenciou da Secretaria Estadual de Agricultura para participar do processo, fala em um misto de angústia com esperança. “Em um primeiro momento o clima aqui não é evidente de alegria. O sentimento era de que as coisas fluíssem. Mas é necessário que a Câmara tome essa decisão dura em nome do País. O importante é observar que todos os ritos processuais e jurídicos estão sendo observados e que as instituições funcionam para dar cumprimento ao previsto na Constituição, que é a previsão de crime de responsabilidade para casos extremos como este”, aborda. Jardim associa os erros do governo que geraram o impeachment com os desvios de natureza moral e política. “A pedalada fiscal é uma burla grave ao Orçamento, à Lei de Diretrizes e à Fiscal e isso, sem autorização em lei, configura crime. E foram ações reiteradas de burlar as regras de finanças públicas e, por isso mesmo, com dolo. O problema se somou a um efeito cascata na economia e no País, com graves sinais de desajuste fiscal que comprometeram a credibilidade do governo. São três anos de recessão e milhões de desempregados que aniquilaram o que foi gerado antes”, completa.

O deputado Milton Monti (PR) ressalta que o sentimento predominante no parlamento é de que “o País respira democracia”. “A democracia está viva e as pessoas estão podendo se manifestar, mesmo com alguns exageros. O que vemos é que o Congresso cumpre seu papel e esperamos que não haja confronto entre adeptos contra e a favor do governo. É um processo doloroso mas necessário, que o País está enfrentando com responsabilidade”, reforça.

Monti apela para o sentimento de serenidade e respeito nesse momento. “É preciso que a população tenha serenidade e não deixe que essa ansiedade contamine o processo. Essa ansiedade está presente no comportamento da maioria dos deputados aqui em Brasília e é natural que isso aconteça na cabeça de cada um que terá o papel de decidir nesta fase de crise grave enfrentada pelo País. Mas a democracia vive, apesar da tensão”, finaliza.       

Monti e Jardim têm receio de que o episódio deixe sequelas nas ruas. Arnaldo adverte para o perigo de ações raivosas, que estimulem o quebra-quebra neste momento. Sobre o dia seguinte ao possível impeachment, os deputados consideram que não há espaço nem político nem institucional para qualquer governo tampão frear as ações contra a corrupção em curso, sobretudo na Operação Lava Jato.  


Crise prolongada cansa cidadão comum

O aumento do desemprego associado à perda da capacidade de compra de quem ainda tem carteira assinada são dois dos ingredientes mais devastadores no ânimo dos trabalhadores na hora de comentar o atual momento do País. Em Bauru, o cansaço derivado do prolongamento da crise política – ainda sem horizonte de fim a curto prazo – influencia nas críticas ao governo Dilma.

Para quem está no grupo dos desempregados, esse sentimento negativo contra o governo é mais exacerbado. Na fila de espera do Poupatempo para o serviço do seguro desemprego, Aline Rodrigues Avi, 31 anos, bancária até quatro meses atrás, disse estar atônita.

“Há um bombardeio de informações pela mídia e pela Internet é ainda mais difícil separar as informações verdadeiras das maldosas sobre a crise. Tem de saber coletar a informação para não ficar ainda mais desinformado. A situação é muito difícil e isso já chateou. E no meu caso, sem emprego, a coisa fica ainda pior”, comenta.

Ela foi com a mãe ao Poupatempo. Eliane Bonfim Rodrigues Avi, comerciária, falou que está indignada. “Nós trabalhadores sonhamos, fizemos planos e tudo vai água baixo por causa de briga entre políticos envolvendo corrupção? Isso tudo deixa a gente muito frustrada. Meu sentimento é que saiam todos os culpados e não só a presidente”, critica.

A mãe conta que a Aline não acompanhou o processo de impeachment de Collor, em 1992. A filha responde: “O que eu li ou ouvi sobre o processo do Collor é que a situação é a mesma, corrupção, que o País não só não resolveu como aumentou”. Para a mãe, a doença é a mesma, mas os sintomas distintos: “Hoje é muito pior porque a corrupção pega várias áreas. No Collor, o que mais pegou mesmo foi o confisco da poupança”, recorda.

O comerciante Wagner Matheus, 59 anos, diz estar contente. “Estou alegre, contente porque essa senhora vai sair. E vai tarde. Demorou para sair. Sei que isso não resolve tudo, que ainda tem muita sujeira. Mas pelo menos começa por alguma coisa. Vamos tirar um por um. O brasileiro não pode ser acomodado e descuidar”, avisa.

O jovem Émerson Aparecido da Silva Rosa, 23 anos, que tenta uma vaga para auxiliar de estoque, tem expectativa de melhora. “Pior do que está não consigo ver. O País está parado desde a Copa do Mundo, em 2014. O novo governo tem de ser radical com a corrupção. Fico triste em ver o País assim”, finaliza.     

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