Articulistas

Na guerra todos são perdedores

Jéssica Godoy
| Tempo de leitura: 3 min


Conheci, durante um Free Walking Tour, os resquícios do muro de Berlim, símbolo da guerra-fria, durante um frio extremo em janeiro de 2013. A história ali, viva, estava exposta a fim de se preservar a memória. Era como se um eco mudo estivesse constantemente me dizendo: “Sou a consciência de todos aqueles que se julgam fortes a ponto de serem soberanos e autoritários, aprendam e não repitam os mesmos erros”.

Durante 28 anos não era só um muro que separava as duas Alemanha. A divisão de terras foi muito mais profunda e traumática que a destoante arquitetura que ainda se preserva imponente. A Cortina de Ferro representava a intolerância, a ausência de diálogo, o autoritarismo: segregava famílias, amores e sonhos.

Todo mundo sofreu. Todo o mundo olha, através do significado e da história daquele muro, o retrovisor, lamenta e sofre. Sofrimento limitado. Ignoram os muros físicos e simbólicos que dividem o mundo ainda hoje.

Há o muro de Israel na fronteira com o norte da Cisjordânia que separa judeus e palestinos construído desde o já virado século XXI. Há um muro entre os EUA e o México separando a “grande potência” dos latino-americanos. Há muros simbólicos que separam a Europa da África e do Oriente Médio e que fazem mortos no Mar Mediterrâneo e Mar Egeu todos os dias. Que separa bolivianos, venezuelanos e cubanos de brasileiros, todos latino-americanos. Que separa a região Centro-sul brasileira do Nordeste. Rico de pobre. Branco de negro.

Condomínio de favela. Homem, de mulher, de transgênero. Heterossexual, de homossexual, de bissexual, de assexuado. Cristãos de cristãos, e de outras religiões... Todos, resultados da violência naturalizada, escancarada, mas que não se enxerga.

Faz calor extremo hoje no Brasil. Holofotes ligados e atentos nos últimos tempos na paradoxal Brasília. Orgulho arquitetônico, vergonha política. Vergonha que remete antes mesmo da sua criação, antes mesmo desses. Vergonha que fez parte do Rio de Janeiro, de Salvador, antes mesmos da República. A corrupção e a sede por poder corrompe as terras tupiniquins há mais de 500 anos.

No domingo (10), uma das barreiras simbólicas ao diálogo, a guerra-fria brasileira se materializou diante da ‘Casa do Povo’. Dos dois lados estão os que acreditam lutar pelo melhor. Há muito oportunismo, sim. Mas há muitos também que não se toleram e por isso perdem a chance de conhecer quem está do outro lado do muro e que também quer um Brasil diferente e melhor para todos. No fundo, têm anseios iguais. A intolerância empobrece o debate racional, o entendimento da política, a formação da opinião pública, as propostas, as soluções. Trata-se da construção de um muro, cortina de ferro literalmente, separando o superficial fla-flu político. “Para evitar conflitos”, alguns disseram. Provavelmente, já que não querem dialogar, que pressupõe falar, mas também ouvir.

O comodismo, porém, não constrói. O ódio nunca construiu. Sabemos que pontes interligam e que muros separam. Mas só na teoria. Na prática evidenciamos o que aprendemos. Infelizmente, muros seguem tão recorrentes nas nossas histórias. Já deixa marcas, no convívio entre amigos, conhecidos, familiares, na democracia que aceita a diferença se se convive com ela, correndo o sério risco, caso contrário, de se dissipar. Uma vez construídos, resultado de guerras, simbólicos ou materializados, os muros caindo ou não, não haverá heróis, mocinhos ou vilões. Perdemos todos.

A autora é jornalista e mestranda do programa de pós-graduação em comunicação midiática da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Comentários

Comentários