Tribuna do Leitor

Tiradentes: a entrevista

Luiz Vitor Martinello
| Tempo de leitura: 5 min

Pois bem, quando a Pátria homenageia o Mártir da Inconfidência, mais conhecido como Tiradentes, pela habilidade com que arrancava os dentes das gentes e, com grande arte, colocava novos outros, feitos por ele mesmo, lembrou-se me hoje de entrevistá-lo.


Fiz-lhe algumas perguntas e ele a elas respondeu com a simplicidade nada comum às celebridades. Perguntei-lhe primeiramente se ele confirmava sua profissão de alferes.


- Sim, disse-me, nasci em 1746, num distrito de São João Del Rei. Em 1780 arregimentei-me como soldado e em 1781 fui promovido a alferes. Comandei uma patrulha de ronda do mato, prendendo ladrões e assassinos. Pertenci ao Regimento de Dragões de Minas Gerais.


Era então uma espécie de Sérgio Moro da época colonial? Perguntei-lhe.  


- Nem tanto... Muito menos! Mas levei boa leva de bandidos para as grades, disse, rindo.

- Além das armas e da sua conhecida habilidade com os dentes, a que outras coisas você se dedicava?

- A mando do governador da capitania de Vila Rica, levei a cabo estudos demográficos, geográficos, geológicos, mineralógicos - quer de aplicação civil, quer militar. Modéstia à parte, brilhantemente.

- Então você era intelectual?

- Digamos que tinha uma letra desembaraçada, tudo queria saber.

- Sua carreira então tinha tudo pra deslanchar...

- Quem dera... No exército, fui sistematicamente preterido nas promoções, enquanto os portugueses, mesmo os da pior qualidade, lá iam subindo, paulatinamente.

- E essa coisa de conspiração, de golpe contra a Metrópole?

- Pois é... As coisas foram se somando. O Brasil não tinha uma constituição, não tinha direitos de desenvolver indústrias em seu território e o povo sofria com os altos impostos cobrados por Portugal. Nas regiões mineradoras, o quinto (imposto pago sobre o ouro) e a derrama causavam revolta na população. Queríamos transformar o Brasil numa república independente de Portugal - e isto é o que precisa ficar bem claro - formar aqui uma grande nação republicana, com suas indústrias e possuindo um corpo de leis moderníssimas, de acordo com os postulados revolucionários que agitavam a França.

- E vocês achavam isso possível?

- Sim, é claro! A riqueza de Vila Rica permitia a formação duma elite intelectual, homens de letras, homens de leis. Alguns jovens estudaram em França, onde beberam o fermento revolucionário. Tínhamos até desenhada uma bandeira com um triângulo e os dizeres em latim: “Libertas Quae Sera Tamem”.    

- Mas deu no que deu...

- Pois é! Em 1789 fui preso no Rio de Janeiro como conspirador e no ano fatídico de 1792 fui enforcado em praça pública e depois esquartejado.

- Parece que só você se deu mal...

- Bem, eu era o mais chinfrim da turma. Mas o poeta Cláudio Manuel da Costa também não se deu bem. Apareceu misteriosamente morto num cubículo infecto. Suicídio, dizem... Os outros tiveram mais sorte, tentando passar por inocentes. Igual a essa coisa que vocês apelidaram de mensalão, de petrolão...  Ninguém tem culpa de nada... Ninguém fez nada... Ninguém viu nada... Alguns estão na cadeia, mas boa parte dentre eles, principalmente os políticos, estão todos aí, soltinhos que só eles. Mas também quem mandou que eu fosse um silva.

- O Lula também é Silva. E chegou à presidência. O Duque de Caxias também era Silva. O Jânio Quadros era Silva.

- Eu sei. Mas tem Silva e tem silva. Eu sou um silva com letra minúscula. Eles são Silva com letra maiúscula.

- O Lula da Silva era pobre também, veio lá do perdido sertão pernambucano, foi metalúrgico, um trabalhador como todo mundo. Chegou ao poder pelos votos do povo.

- Mas faz o jogo dos poderosos, dos banqueiros... Em nome do povo, a quem dá farelos... O grosso da grana... Bem você sabe...

-Você parece estar bem informado.

- Eu faço parte da A. B. H. P.

- A. B. H. P.?

- Academia Brasileira dos Heróis Permanentes. Lá estão os imortais. Zumbi, aquele do Palmares, Dom Pedro I, Dom Pedro II, Plácido de Castro, Almirante Tamandaré, Santos Dumont, JK, Ayrton Senna. Temos reuniões semanais, presidente, pauta, secretário, ata, tudo como manda o figurino.

- Você deve ser o secretário.

- Como você sabe?

- Você disse que tinha uma letra desembaraçada.

- Ainda tenho.

- Que assuntos vocês tratam nessas reuniões?

- Como eu disse, nós temos uma pauta. Ainda outro dia, debatemos a questão de traição. Abri a sessão, pois achava que desse negócio de traição eu entendia. Veja o presidente Lula, por exemplo. Tempos atrás, acuado por denúncias, alegou ter sido traído. No entanto se negou a apontar quem era o seu Judas. O povo, por sua vez, rebate dizendo que o traído é sempre ele, o povo, sempre aliciado por falsas promessas durante as campanhas eleitorais. Não viu a última? Um verdadeiro estelionato eleitoral!

- E daí?

- Daí nada. As providências quem tem que tomá-las são vocês, pobres mortais... Nós já fizemos nossa parte.

- E a questão dos impostos já foi pauta?

- Já. Aliás, é um absurdo o que se paga de impostos neste país. O Brasil, se é que não estou desatualizado, tem a segunda maior carga tributária do mundo, só perdendo para a Dinamarca.

- Bom... Você fala com conhecimento de causa... Denunciou a exploração portuguesa sobre nós, aquela coisa do quinto...

- É verdade, mas perto dos impostos de hoje, o quinto era fichinha...

- Tudo bem que agora vocês, heróis, estejam aposentados. Mas pensemos na hipótese de você voltar a viver cá, entre nós, pobres mortais. Com esta alta taxa tributária, com essa celeuma política toda, o que você faria?

Tiradentes matutou um tantinho demorado, alisou as longas barbas, e só então, num sotaque acentuadamente mineiro e matreiro, desfechou resposta:

- Virge Maria, siô, eu havéra era mais de me enforcar, uai!

Comentários

Comentários