Na véspera da votação do impeachment, pelo plenário da Câmara da Deputados, ouvi um amigo dizer que torcia pela presidente Dilma, embora sempre se pronunciasse pelo contrário, como militante de um partido de oposição. Milhões de brasileiros devem pensar da mesma maneira, sem ver sentido em o fato da presidente ser julgada por um grupo desprezível, a começar pelo presidente da sessão Eduardo Cunha, indiciado em seis processos por corrupção. Em sentido contrário, dois vice-líderes do governo anteciparam que vão votar pelo impeachment no Senado: “Temos que ouvir as vozes da rua”.
Busco explicações para essas contradições na teoria em ciência política e comunicação de massa desenvolvida nos anos 1960 pela filosofa alemã Elisabeth Noelle-Neuman. A ideia central é que os indivíduos ocultam sua opinião quando conflitantes com a opinião dominante, com medo de isolamento. É a chamada “espiral do silêncio”, porque nem todos têm coragem de verbalizar sua opinião contra a corrente. Aristóteles já havia abordado a questão em contexto semelhante, ao analisar que a sociabilidade é uma propriedade essencial ao homem. Nós todos precisamos de vínculos sociais próximos e tememos o isolamento. Tocqueville, em suas reflexões sobre a democracia norte-americana, também abordou o “medo do isolamento”, esse “incômodo e sensação de insignificância” perante a opinião dominante.
O problema é que a pauta de discussão, no nosso dia-a-dia, é determinada pela mídia (Agenda Setting). A televisão, os jornais e as revistas martelam o mesmo assunto durante meses e influenciam as manifestações nas redes sociais, hoje uma magnífica câmera de ressonância ampliada da agenda. Existe uma “acumulação” de informações, por excesso de exposição à mídia. Há “consonância”, pela forma semelhante como as notícias são produzidas e veiculadas e existe “ubiquidade”, a presença da mídia em todos os lugares. Com esses três mecanismos ficamos idiotizados pelo trabalho diuturno do bate-estacas dos meios.
Até a própria Folha viu-se vítima de pancadaria ao ousar, em editorial, pedir a renúncia de Dilma e Temer e a realização de eleições livres. Nem ao maior jornal do país admite-se o abandono da pauta “impeachment a qualquer custo”. Com esta discussão monotemática, a imprensa abandona ocorrências de importância, como a do rompimento da barragem de rejeitos da Samarco. Esqueceram-se da maior tragédia ambiental sob responsabilidade humana ocorrida no mundo. Estamos diante da destruição de toda uma cadeia alimentar no Rio Doce, e não se sabe quantas décadas teremos que esperar pela recuperação de parte do ecossistema. Até Eduardo Cunha foi deixado de lado e ganhou sobrevida. A pauta exige Dilma, Dilma, Dilma.
Getúlio Vargas sofreu uma avalanche de acusações pelos maiores jornais do país, dominados por Assis Chateaubriand e postos à disposição do oposicionista Carlos Lacerda. Só se falava no “mar de lamas nos porões do Palácio do Catete”. A deposição de Getúlio parecia vontade unânime. Depois de 20 anos como ditador, desde os anos 1930, GV voltara à Presidência nos braços do povo, em eleições livres em 1950. Pressionado, suicidou-se no dia 24 de agosto de 1954. Chocada, a maioria rompeu seu silêncio em todo o país. O Rio de Janeiro jamais viu tanta gente acompanhando um cortejo fúnebre. A imprensa mudou de opinião sobre a idoneidade do morto e passou a exaltar a modernização do país sob seu mandato. A UDN, partido de oposição a Getúlio, jamais foi governo.
Democracia não é a ditadura da maioria aparente. A advertência vem de Sócrates, descrito em Górgias por Platão. Observa-se em países de “democracia imatura” uma tolerância repressiva como se o ruído das ruas fosse fonte do Direito. É preciso ouvir a espiral do silêncio. Ou melhor, “auscultar”, como faziam os médicos de antigamente, com o ouvido encostado ao peito do paciente. Para exaltar a importância do silêncio, John Cage, pioneiro da música aleatória e “anarquista prático”, compôs a peça 4’33’’ (1952). Os músicos sobem ao palco, cumprimentam a plateia, sentam-se ao instrumento e ali permanecem 4 minutos e 33 segundos quando então levantam, agradecem e saem sem nada tocar. A “música” é o burburinho dos próprios espectadores. O silêncio ruidoso. A ausência presente.
O autor é jornalista e articulista do JC