| Malavolta Jr. |
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| Vinicius Fernando Ramos Pereira, 26 anos, foi espancado até a morte perto do playground de residencial em Bauru |
| Arquivo Pessoal |
Mais uma lamentável tentativa de fazer justiça com as próprias mãos levou à morte de um jovem de 26 anos, na última segunda-feira (25) à noite, entre o Parque City e o Colina Verde, em Bauru. Vinicius Fernando Ramos Pereira foi espancado dentro de um residencial do Minha Casa Minha Vida (MCMV), porque os moradores o flagraram furtando um botijão de gás. Segundo especialistas, esse comportamento expõe a violência “à flor da pele” da sociedade atual, na qual os cidadãos assumem a função das instituições.
Conforme consta no registro da polícia, Vinicius e sua namorada, Ana Paula Veronez, 25 anos, tentaram furtar o Residencial Arvoredo, por volta das 23h de anteontem, mas foram flagrados pelos moradores. Os dois sofreram agressões, porém, o rapaz não resistiu aos ferimentos e morreu. Já a moça foi encontrada perto da portaria do prédio. Ela apresentava lesões nas costas, na boca e nos joelhos. Ainda como “punição”, teve seu cabelo raspado.
Ambos foram encaminhados ao Pronto-Socorro Central (PSC) pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), que foi acionado pelo supervisor do condomínio. Segundo a assessoria de imprensa da Prefeitura de Bauru, Ana Paula não corre risco de morte, mas permanecia em observação na unidade até o fechamento desta edição. Ela aguardava alguns exames.
Quem ouviu toda a confusão foi o porteiro Oswaldo Ferreira Louzada, 33 anos. Ele disse à reportagem que só havia pessoas de dentro do condomínio - cerca de 100, segundo o registro da polícia - no local onde as vítimas foram agredidas, ou melhor, perto do salão de festas e do playground. “Os dois não moravam no prédio e não os vi entrando. Acredito que tenham pulado o muro da parte de trás”, relata.
TENSÃO SOCIAL
Coordenador da Central de Polícia Judiciária (CPJ), o delegado Dinair José da Silva afirma que, mesmo que fosse comprovado que a vítima cometeu o furto, os agressores deveriam tê-la detido até a chegada da Polícia Militar (PM), já que, pelo histórico do BO, ela não estava armada e, portanto, não representava perigo aos moradores. “É o reflexo da situação de instabilidade que vivemos no País, em que qualquer coisa é motivo de agressão”, pontua.
Primeiro caso
Já o comandante do 4.º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4.º BPM-I), o tenente-coronel Flávio Jun Kitazume, afirma este é o primeiro caso de linchamento que presenciou em Bauru. “O que tivemos foram tentativas de linchamento, mas, desta vez, a vítima morreu”, justifica. Agora, a PM pretende intensificar o patrulhamento em todos os condomínios do MCMV, em especial o que foi palco do crime.
Desumano
Segundo a psicóloga Nilma Renildes da Silva, a atitude dos agressores foi desumana. Contudo, ela acredita que seja uma exceção, não uma regra. “É uma barbárie total, porém, por mais que vivamos em tempos de crise, a maior parte das pessoas ainda confia nas instituições. Criticamos tanto o sistema judiciário, mas ele funciona. Quem comete esse tipo de violência são pessoas assustadas e desorientadas”.
Inquérito
A Polícia Civil instaurou inquérito para apurar o caso, que foi registrado como lesão corporal seguida de morte e não como homicídio, conforme explica o delegado Dinair José da Silva. “O delegado plantonista entendeu que não houve intenção de matar, apenas a de causar lesão”, defende. Contudo, a tipificação poderá mudar ao longo das investigações, cujo próximo passo será identificar os agressores, para que cada um responda individualmente. A pena para o crime varia de 4 a 12 anos de reclusão.
Jovem havia apanhado por furtar na 6ª
Segundo a irmã de Vinicius, Paloma Diana de Paula Gaspar, o rapaz já havia apanhado no mesmo condomínio dois dias antes de ser, de fato, linchado. O motivo seria o mesmo: cometer pequenos furtos. Contudo, ninguém registrou queixa junto à polícia.
O único caso no qual ele foi apontado como autor se deu há mais de dois anos, no dia 1 de março de 2014. Na ocasião, Vinicius foi flagrado com uma lixadeira que subtraiu de um ferro velho da Vila Falcão. Ele foi detido por uma testemunha até a chegada da Polícia Militar (PM).
| Samantha Ciuffa |
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| Paloma Diana de Paula Gaspar relata que Vinicius era usuário de drogas, mas diz que nada justifica o que aconteceu com ele |
‘Nem um cachorro merecia isso’
Inconformada, a dona de casa Paloma Diana de Paula Gaspar, 18 anos, relata que Vinicius era usuário de drogas. “Mas nada justifica. Nem um cachorro merecia isso”, desabafa. Ela afirma que o irmão era uma pessoa atenciosa e havia acabado de ter um bebê junto à namorada, que também foi agredida na segunda-feira (25).
Agora, Paloma espera pela “justiça divina”. “Deus sabe das coisas”. O corpo de Vinicius está sendo velado no Velório São Vicente, na Praça Dom Pedro II, 4-38, no Centro. Já seu sepultamento será nesta quarta-feira (27), às 9h30, no Cemitério Memorial Bauru, na rua Ezequiel Ramos, 15-51, na Vila Cardia.
Quando a barbárie ecoa...
Vitor Oshiro
Editor Local - Jornal da cidade
“Um a menos no mundo para encher o saco”. “Não tenho um pingo de dó”. “Se roubar minha casa, também vou mandar pro inferno”. Essas foram algumas das frases escritas nas redes sociais ontem sobre o linchamento. E, claro, não poderia faltar uma das máximas: “Bandido bom é bandido morto”.
A morte de Vinicius e a agressão a sua namorada (a jovem teve até o cabelo raspado) deixam claro como a violência segue fugindo do controle. E por violência não falo só da “criminalidade”, mas de uma irracionalidade que emerge dentro de cada um. De um estado de explosão inconsequente em momentos de tensão. Ou melhor, que vai até além dos momentos de tensão. A violência que enxerga justificativa no injustificável. A violência que analisa ser viável tirar a vida de um jovem por um botijão furtado ou mesmo por ocorrências anteriores.
Em momento algum, o jovem e namorada são apontados como “santos”. Se furtaram, deveriam pagar pelos seus crimes. Pagar, contudo, pelos meios legais. Deveriam ser punidos pelos trâmites da Justiça. Em estado animalesco, as pessoas não têm – e espero que nunca tenham – o direito de se colocarem, simultaneamente, no posto de policiais, juízas e executoras.
Em 1.780 a.C, o Código de Hamurabi trouxe para a Babilônia a Lei de Talião, que permitia a “justiça” (ou vingança) com as próprias mãos. Baseada na máxima “olho por olho, dente por dente”, tal aplicação começou a entrar em declínio com a conquista dos direitos humanos. O estado de violência “à flor da pele” preocupa por ecoar essa realidade de bárbarie. Alarma por ignorar, de forma brutal, as instituições. “Independente de ser usuário, uma mãe não merece ver seu filho no caixão”, disse a irmã de Vinicius. Vou além: ninguém tem o direito de por o filho de alguém em um caixão.

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